Você que me lê, me ajuda a nascer.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Me deixa.

... que hoje eu tou de bobeira.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Documentário.

Eu vou estar na Olido, dia 08 de fevereiro. Mas claro.

Leia o livro.

Um dos cedês mais legais do mundo me manda ler o livro.
Universo em Desencanto.
Acho que vou visitar uma reunião Racional qualquer dia desses. Fica aqui perto de casa, dá pra ir a pé.
Na música Tim diz pra mim
leia e vai saber o que é encanto
Vou ler então. Quem saiba eu acorde num mundo onde as pessoas acreditem mais nas crianças e na educação.

sábado, janeiro 30, 2010

Blues.

Jack White diz que não queria que as pessoas pensassem que era um branquelo tocando numa banda de blues. Assim como para ele, deve ser difícil para a maioria das pessoas admitir a grande importância dos negros na música. Especialmente para os brancos. Ou branquelos, como ele. Por que seria como ter que se render à essa coisa toda da negritude, e de que tudo que fizemos é realmente muito bom. Lembro de que uma vez li que em tudo aquilo que em dado momento a nós foi "permitido" fazer, por conta do racismo e escravização, nos tornamos os melhores, as melhores. E um pouco também naquelas coisas em que não poderíamos nem passar perto. Sou suspeita para falar? Talvez, mas nem por isso não tenha bom gosto. Por que ele gosta de Son House, e disse no filme A Todo Volume que se tomarmos um trem expresso para o passado do rock, chegaremos ao blues. Ele sabe de tudo. Morou em Detroit, e, segundo ele, uma das poucas famílias brancas a permanecerem lá na década de 80. As famílias negras não tiveram muita escolha. E hoje tem o White Stripes. E mais tanta coisa. E é por que teve o blues lá atrás, que chegou onde pôde chegar com tanta coisa a fazer durante todo o dia, como trabalhar nos campos de algodão e coisas do tipo. Mas é isso que todo mundo que faz música sabe. O mais incrível é que pouca gente diz. São os negros, são as negras. Que fazem de uma música com palmas e voz a coisa mais roquenrou do mundo, como disse o próprio Jack. Pode parecer uma coisa de quem quer afirmar superioridade - tem gente que chama toscamente de racismo ao contrário. Pensem o que quiserem. Tirem suas conclusões. Eu na verdade, só estou falando de criação, sofrimento e música.

Se oriente, rapaz.

determine, rapaz, onde vai ser seu curso de pós-graduação Essa música não me sai da cabeça. Gil, Gilberto. Meu filho vai ouvir isso ainda na barriga.

"Preguiça" Baiana.

'Preguiça baiana' é faceta do racismo. A famosa 'malemolência' ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo, segundo concluiu uma tese de doutorado defendida na USP. A pesquisa que resultou nessa tese durou quatro anos. A tese, defendida no início de setembro pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de 'festa eterna'. Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha. Como 51% da mão-de-obra da população atua no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho. 'Quem se diverte é o turista', diz a antropóloga. O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu, após quatro anos de pesquisas históricas, que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia. O estudo mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista.. A imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que considerava os escravos indolentes e preguiçosos, devido às suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão???). Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando-os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de 'proteção' dos seus empregos. Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. 'Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas. A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil', diz Elisete. Até Caetano se contradiz quando vende uma imagem e diz: 'A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo'. Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente 'Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades.' O maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na América latina. Para tirar as conclusões acerca da origem do termo 'preguiça baiana', a antropóloga pesquisou em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnaval na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também. A única diferença é no São João (dia 24/06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia). Em fevereiro (Carnaval) uma empresa, cuja sede encontra-se no Pólo Petroquímico da Bahia, teve mais faltas na filial de São Paulo que na matriz baiana (sendo que o n° de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada). Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou os dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil). Pesquisas demonstram que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados 'desocupados' (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13° lugar. Acredita-se hoje (e ainda por mais uns 5 a 7 anos) que a Bahia é o melhor lugar para investimento industrial e turístico da América Latina, devido a fatores como incentivos fiscais, recursos naturais e campo para o mercado ainda não saturado. O investimento industrial e turístico tem atraído muitos recursos para o estado e inflando a economia, sobretudo de Salvador, o que tem feito inflar também o mercado financeiro (bancos, financeiras e empresas prestadoras de serviços como escritórios de advocacia, empresas de auditoria, administradoras e lojas do terceiro setor). Do Fórum Permanente de Educação e Diversidade Étnico-Racial.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

... lamento.

... eu quase que não consigo
ficar na cidade sem viver contrariado
Nem fui eu quem disse isso aí não. Mas achei bom. Lamento Sertanejo, de Dominguinhos e Gil. E é quando você conhece alguém, lê uma poesia, vê um filme ou escuta uma coisa que muda tua vida que você pega força para continuar aqui nessa terra. Na terra debaixo do céu. Aí você fica com essa alegria e acredita que tem gente boa de bom coração, que passa duas horas falando e você fica ouvindo sem achar esnobe de metida e isso é coisa boa, por que seu coração se sentiu bem ali parado, só ouvindo coisa que não tinha vontade de ser mais nada além de conversa de duas pessoas que querem continuar vivendo, que morrem e ressuscitam todos os dias, dentro de trem, no meio do engarrafamento, com chuva e atraso.
Todo ano São Paulo é outra cidade para mim. Agora tem mais o centro, eu passo ali mais vezes e lembro de um tempo que nem faz tempo quando aquela fachada de cinema parecia distante e quando ela só existia no sábado-domingo-feriado, agora eu a vejo quando passo de ônibus e é só uma fachada, antes era um parque de diversões e distante a roda gigante, gigante. A cidade mudou, e eu mudei também.

domingo, janeiro 24, 2010

Marinheira só.

Eu não sou daqui. Mas isso todo mundo já sabe.
São três e vinte da matina e eu esqueci o que ia escrever. Era alguma coisa sobre mim. Mas acho que não quero mais falar quem sou. Tempos atrás eu era jovem e fazia essas loucuras.
A chuva não para. O mundo chora suas dores. E eu, eu queria só sorrir os sorrisos que eu guardei para ela, falar eu te amo, pegar na mão, não ter vergonha.
Minha mãe.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Água.

Diego Navarro escreve, eu recebo em minha caixa de emails

Como prometido, um breve relato da situação aqui no Grajaú, ou mais precisamente no bairro Jardim Lucélia.

No ano passado a Prefeitura desalojou dezenas de famílias que viviam numa área de córrego aberto com a intenção de canalizar a área. A desalojação foi absurda, as famílias tiveram apenas uma semana para aceitar os 5 mil reais oferecidos e saírem do local. Algumas manifestações foram feitam, mas no fim das contas nada pôde ser feito.

As obras começaram ainda no ano passado, e para surpresa dos moradores dos arredores, as casas que até então nunca tinham tido problemas de alagamento foram invadidas pelas águas das chuvas.

O ápice aconteceu há dois dias atrás quando a forte chuva que assolou nossa cidade invadiu boa parte das casas e acabou com o patrimônio de várias famílias.Os moradores contactaram os bombeiros, que devido a sobrecarga de trabalho não apareceram. Dentro de poucas horas os moradores revoltados se reuniram na avenida que corta o bairro (Av. Dna. Belmira Marin) e iniciaram um protesto.

Logo a polícia chegou.

A repressão foi desproporcional, e o único motivo que impediu o CHOQUE de estar no local, foi que simultaneamente uma outra população carente protestava na Avenida do Rio Bonito, também por conta dos estragos da chuva e descaso do poder público.

No dia seguinte, logo pela manhã, os moradores do Jardim Lucélia se organizaram mais uma vez, e conseguiram dois ônibus (através da empresa Viação Cidade Dutra que também fica no Grajaú) para os levarem até a subprefeitura da Capela do Socorro.

Na subprefeitura conseguiram o compromisso que até aquela tarde um trator iria até o Jardim Lucélia retirar o excesso de barro, além de caminhões contendo comida e colchões para aqueles que precisavam.

A tarde passou, e no início da noite nenhum sinal da ajuda.

A população revoltada ocupou a avenida, trazendo também todos os móveis destruídos pelo alagamento. Por um bom tempo a manifestação transcorria bem, quando um grupo mais exaltado de moradores exigiu que o motorista e passageiros de um ônibus no local se retirassem para que fosse ateado fogo no ônibus.

Esse ato de revolta, realizado por uma minoria dos manifestantes, e totalmente compreensível dado o absurdo da situação, foi o estopim para que a região fosse infestada de policiais fortemente armados e sem suas identificações, assim como para que a impressa televisiva classificasse a manifestação como uma ação de vândalos arruaceiros. A subprefeitura, numa nota mentirosa, disse que havia enviado recursos de ajuda e que os moradores haviam impedido a entrada dessa ajuda no local.

Até hoje pela manhã um helicóptero da policia militar fazia rondas pelo céu de nossa região. A prefeitura ainda não comentou o assunto oficialmente e o clima fica cada vez mais tenso.

A população envolvida no caso é carente, e apesar de possuir uma associação de bairro, ainda enfrenta dificuldades de se organizar ante o ocorrido.

Moro há 15 minutos do Jardim Lucélia (morei durante 03 anos por ali), por isso não estou diretamente envolvido em todo ocorrido, nesse momento penso em alguma maneira de desfazer o imenso emaranhado de mentiras elaborado por prefeitura e mídia, e que engana até a população dos bairros vizinhos.

Detalhe Irônico, deixado propositalmente para o final:

Uma das reivindicações dos moradores do Jardim Lucélia é que a SABESP restabeleça o fornecimento de água para região, para que possam limpar suas casas. Explico, a tubulação de toda região do Grajaú está sendo trocado e portanto estamos há 3 dias sem água. Sim, FALTA ÁGUA.

Garçonete de avião.

Sabe o que é uma aeromoça?
Garçonete de avião. Eu nunca entendi por que tanta gente que acha chique ser aeromoça. Como se trabalhar viajando de avião, aquela coisa de pane e balanço e pouso forçado e falta disso e daquilo fosse uma sensação.
Para mim é um trabalho insalubre e perigosíssímo. Como motorista de lotação. Nada de chique nisso.
Bobagem.
Sai da frente que hoje eu tou disparada.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Única.

Pequenas coisas deixam a gente feliz.
Tirar uma foto sem querer rindo da vida.
E quando essa foto é a única das férias inteirinha.

Dona dos pezinhos.

A gente sente vontade de continuar a vida toda só pra ver mais sorrisos assim abundarem. Incertos como são também os passinhos, mas luz e esperança.

Somos feias, mas estamos aqui.

por Edwidge Danticat
Uma das primeiras pessoas assassinadas em nosso país foi uma rainha. Seu nome era Anacaona e ela era uma índia Arawak. Ela era poeta, dançarina e pintora, também. Ela governava a parte oeste de uma ilha tão exuberante e verde que os Arawaks a chamavam de Ayiti, terra de grandeza. Quando os espanhóis chegaram pelo mar à procura de ouro, Anacaona foi uma de suas primeiras vítimas. Ela foi estuprada e morta e sua aldeia foi saqueada. A terra de Anacaona é agora frequentemente chamada de o país mais pobre do hemisfério ocidental, um lugar de contínua conturbação política. Assim sendo, para alguns, é fácil esquecer que esta nação foi a primeira república negra, terra dos primeiros afrodescendentes a extirparem a escravidão e a criarem uma nação independente, em 1804.
Eu nasci no Haiti durante o regime ditatorial de Duvalier. Quando eu tinha quatro anos, meus pais deixaram o Haiti à procura de uma vida melhor nos Estados Unidos. Eu tenho que admitir que a motivação deles era mais econômica que política, mas como sabem todos que conhecem o Haiti, economia e política estão intrinsecamente relacionadas; em geral, quem está no poder é quem determina se as pessoas terão ou não o que comer.
Eu hoje tenho trinta e quatro anos e já vou vindo mais de dois terços da minha existência nos Estados Unidos. Minhas memórias mais vivas da infância no Haiti envolvem apagões repentinos, os "blakawouts", como dizíamos. Durante os blecautes, eu não tinha como ler, estudar, ou assistir televisão, então eu me sentava perto de uma vela ou de uma lamparina e ouvia histórias contadas pelos mais velhos da casa.
Minha avó era uma senhora da roça que sempre se sentiu deslocada na capital, onde vivíamos. Ela não possuía nada além de suas colchas de retalhos e suas histórias para se consolar. Foi ela quem me contou sobre Anacaona. Eu dividia um quarto com ela, e eu estava no quarto com ela quando ela faleceu. Ela tinha mais de cem anos. Ela morreu com os olhos arregalados; fui eu quem os fechou. Ainda tenho saudades das incontáveis histórias que ela nos contava. Entretanto, não foi difícil aceitar sua morte, porque a morte estava sempre por perto.
Quando menina, eu vivia indo a funerais. Meu tio e tutor era pastor da igreja Batista e esperava-se que sua família fosse a todos os funerais que ele presidisse. Eu fui a todos os funerais com o mesmo vestido de laço branco. Acho que é por ter ido a tantos funerais que eu tenho um forte sentimento de que a morte não é o fim, e que as pessoas que colocamos debaixo da terra estão indo embora viver em algum outro lugar. Mas ao mesmo tempo eu acredito que elas estarão sempre por perto nos protegendo e nos guiando em nossa jornada.
Quando eu tinha oito anos, o cunhado do meu tio passou uma longa temporada trabalhando nos canaviais da República Dominicana. Ele voltou mortalmente adoentado. Lembro-me de sua esposa girando penas por dentro de suas narinas e esfregando pimenta do reino na parte superior de seus lábios para fazê-lo espirrar. Ela acreditava piamente que se ele espirrasse, ele sobreviveria. À noite, eu era eu a encarregada de observar o céu acima da casa em busca de vestígios de estrelas cadentes. Diz a sabedora haitiana rural que quando vemos uma estrela cadente é porque alguém vai morrer. Uma estrela caiu do céu e ele morreu.
Lembro-me de na infância ver Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier e sua esposa, Michèle, passarem de Mercedes-Benz atirando dinheiro pela janela para as crianças paupérrimas de nosso bairro. As crianças quase se matavam tentado pegar uma moeda ou ver Baby Doc e Michèle. Em um Natal, deu no rádio que a Primeira Dama distribuiria brinquedos de graça no palácio. Meus primos e eu fomos para o palácio e fomos quase esmagados na multidão de crianças que inundou os jardins do palácio.
Essas histórias e memórias reavivam umas questões que não me saem da cabeça. Qual é o meu lugar agora nisso tudo? Qual era o lugar de minha avó? Qual é o legado das filhas de Anacaona, das filhas do Haiti?
Ao assistir aos telejornais, é sempre difícil dizer se existem mulheres reais vivas e respirando em lugares detonadas por conflitos como o Haiti. Os telejornais da noite só nos fornecem notícias breves sobre golpes presidenciais, imigrantes rejeitados, e sabotagens em eleições. As histórias das mulheres nunca conseguem chegar às primeiras páginas. Mas elas existem, sim.
Ao longo dos anos, eu conheci mulheres que, quando os soldados chegavam em suas casas no Haiti, diziam aos filhos para ficarem deitados paralisados e se fazerem de mortos. Eu conheci uma mulher cuja irmã grávida foi baleada no estômago porque estava vestindo uma camiseta com uma "imagem antimilitar". Eu conheço uma mãe que foi presa e espancada por trabalhar com um grupo pró-democracia. O corpo dela é marcado pelas cicatrizes deixadas pelos cigarros enterrados pelos soldados em sua carne. À noite, essa mulher ainda sente o cheiro das cinzas das guimbas de cigarros que eram enfiadas, acesas, em suas narinas. Na mesma cela, essa mulher viu adidos paramilitares estuprarem sua filha de quatorze anos sob a mira de uma arma. Quando mãe e filha entraram em uma pequena embarcação rumo aos Estados Unidos, a mãe nem desconfiava que a filha estava grávida. Muito menos sabia que sua criança tinha sido infectada pelo vírus HIV contraído de um dos paramilitares que a estupraram. O fruto desse estupro, sua neta, recebeu o nome de Anacaona, como a rainha Arawak, porque essa família de mulheres é de Léogane, a mesma região em que Anacaona foi assassinada, a mesma região em que minha avó nasceu.
A pequena Anacaona possui um rosto que não traz mais qualquer traço de sangue indígena, mas sua história ecoa alguns dos primeiros sanguinários incidentes em uma terra que os tem assistido excessivamente.
Tem um ditado haitiano que talvez não agrade à sensibilidade estética de algumas mulheres. /Nou lèd, nou la/, que quer dizer /Somos feias, mas estamos aqui/. Assim como a modéstia característica da cultura rural haitiana, esse ditado é mais caro às mulheres pobres haitianas do que a manutenção da beleza, seja ela superficial ou não. Para mulheres como minha avó, o que vale à pena ser celebrado é o fato de que estamos aqui, que apesar de todas as adversidades, nós existimos. Para mulheres como minha avó, que cumprimentavam umas às outras com este ditado quando se cruzavam ao longo de um caminho de terra lá na roça, a essência da vida está na sobrevivência. É sempre bom lembrar às nossas irmãs que sobrevivemos a mais um dia para atender ao chamado de uma vida muitas vezes dolorosa e muito difícil. É neste espírito que até hoje uma mulher lembra-se de dar à sua filha o nome de Anacaona, um nome que ressoa tanto o esplendor quanto a agonia de um passado que assombra a tantas mulheres, e homens, hoje.
Quando foram escravizadas, nossas antepassadas acreditavam que quando morressem seus espíritos retornariam à África. Mais especificamente, retornariam para uma terra pacífica, a qual chamamos de Ginen, habitada por deuses e deusas. As mulheres que vieram antes de mim eram mulheres que falavam metade de uma língua e metade de outra. Elas falavam o francês e o espanhol de seus colonizadores misturados às suas próprias línguas africanas. Essas mulheres pareciam estar falando em línguas estranhas quando rezavam para seus velhos deuses, os antigos espíritos africanos. Apesar de temerem não serem mais entendidas por suas antigas divindades, elas inventaram uma nova língua para descrever o local que passaram a habitar, uma língua da qual brotaram frases coloridas para atender a circunstâncias desesperadoras. Quando essas mulheres se cumprimentavam, elas se descobriam falando em códigos.
- Como vai você hoje, irmã?
- Eu sou feia, mas eu estou aqui.
Hoje em dia, muitas das minhas irmãs se cumprimentam bem distante das terras onde aprenderam a falar em línguas estranhas. Muitas conseguiram chegar a outras partes, depois de viajarem milhas sem fim em alto mar, em precárias embarcações que quase lhes tiraram a vida. Em 29 de outubro de 2002, uma mulher, debilitada pela longa jornada no oceano, ao avistar terra firme teria se atirado na maré baixa. Outras pessoas a seguiram, inclusive meninas e meninos pequenos que preferiram correr o risco de quebrarem um braço ou uma perna a se separarem de seus pais. Estes são apenas alguns dos milhares que chegam às costas estadunidenses ao longo do ano, apenas para serem cercados, algemados, levados presos, e quase sempre devolvidos para o lugar de onde vieram. Há onze anos atrás uma mulher pulou no mar quando descobriu que sua bebezinha tinha morrido em seus braços em uma jornada que ela tinha esperanças que as levasse de encontro a um futuro melhor. Mãe e filha, foram para o fundo de um oceano que já contém milhões de almas da /middle passage/, o holocausto do comércio de escravos. O sacrifício da mulher levou muitos de nós às lágrimas, mesmo que o acontecido nos fizesse lembrar de um monte de sacrifícios outros, feitos no passado, em nome de todos nós, para que pudéssemos estar aqui.
O passado está repleto de exemplos de nossas antepassadas mostrando tão profunda confiança no mar a ponto de saltarem de navios negreiros e se deixarem acolher pelas ondas. Elas acreditavam ser o mar o princípio e o fim de todas as coisas, o caminho para a liberdade e a passagem para o Ginen. Essas mulheres, mulheres como minha avó que me ensinou a história de Anacaona, a rainha, têm sido parte da construção do meu próprio ser desde que eu era uma menininha.
Minha avó acreditava que se uma vida é perdida, uma outra vida brota em algum outro lugar, sendo essa nova vida ainda mais forte que a outra. Ela acreditava que uma pessoa não morre, realmente, desde que alguém se lembre dela, alguém que reconheça que esta pessoa, apesar de tudo, estava aqui. Nós somos parte de um círculo sem fim, somo as filhas de Anacaona. Nós envergamos mas não quebramos. Não somos atraentes, mas ainda assim resistimos. De vez em quando devemos gritar isso o mais distante que o vento puder levar nossas vozes. /Nou lèd, nou la!/ Somos feias, mas estamos aqui.
E aqui para ficar.
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Título original: “We Are Ugly, But We Are Here”, texto extraído da coletânea Women Writing Resistance: Essays on Latin America and the Caribbean (Cambridge, MA: South End Press, 2003, 23-27) editada por Jennifer Browdy de Hernandez, com prefácio de Elizabeth Martinez. Tradução de Kátia Costa Santos (krsantos@gmail. com ), 15/1/10.

domingo, janeiro 17, 2010

Sem título.

A questão parece ser: somos o que dizemos ser? O que escrevemos?

Somos o que pensamos ser ou o que pensaram sobre nós?

Fico pensando, pensando... por que eu realmente não sei se é só isso ou tem algo mais.

Acho que depois que entendi que o que importa é o método, o meio, e não a mensagem, as coisas ficaram mais simples.

Mas, ainda assim, não sei quem sou. E isso agonia de vez em quando.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Pezinhos.

Dá vontade de saber quem é?
É menina bonita. Não canso de olhar a foto. Penso no rosto dela, no passinho incerto - correto? - hesitação, o mundo todo ainda me espera e eu aqui posando - ou não? - pra foto, olhando pro chão, o céu, o chão, os pezinhos.

Precious, o filme.

Tem Precious na internet. Mas se puder, esperem até dia 29.01.2010, dia da estreia.
Assistam.

Tana.

Nas férias eu escrevo mais e melhor ou escrevo mais - e por conseguinte melhor?
Assistam Un novio para mi mujer. Muito bom. Quero ter o direito de exercer meu momento Tana quando quiser. Sem perder namorado e amigos, amigas.
A gente segue sempre descobrindo. Eu que sou muito metódica dentro da minha cabeça. Que quero que as coisas saiam como eu planejei, se os percursos mudam eu me embaralho toda, aí agrego a nova coisa bem rápido mas fico com saudade do meu planejamento e pensando que eu não deveria ser tão flexível, por que é nessa flexibilidade que a gente erra a mão, se perde, se esquece, não sabe mais quem se é, tenho medo de não me reconhecer nas coisas que fiz, acho que por isso, quero que saia como planejei.
Algumas coisas mudaram com a vida que passou, eu agora não quero mais um milhão de amigos, mas eu quero ainda fazer tudo direitinho, ser honesta, justa, pagar as contas, não me meter em brigas, acreditar, acreditar.
Descobri também que talvez eu melhore meu pessimismo se assistir mais televisão. Vou ficar mais desesperançada e infeliz, mas mais esperta e vou saber para onde correr na hora da confusão.

Encontros.

Crianças, bichos e plantas. Se você não se enquadra nesses termos, nem me procure.
Dia 03 de fevereiro, vou abrir agenda para atender humanos.
Mande recado.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

Terreiro de Mãe Stella sofre assalto em São Gonçalo do Retiro.



Publicada em 06/01/2010

Crédito: Correio*































Desrespeito à religião e ao ser humano. É assim que os moradores e frequentadores do espaço onde funciona o terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, de Mãe Stella, interpretam a série de assaltos que vem sendo realizada no local. Em uma semana, bandidos invadiram o local, no São Gonçalo do Retiro, pelo menos três vezes.
Na manhã da última segunda- feira teve até tiroteio: moradores contam que, em perseguição a um bandido que usou o terreno como rota de fuga, policiais abriram fogo dentro terreiro, assustando quem estava por perto.
A polícia afirma que diversas quadrilhas de traficantes agem no local. A ousadia dos criminosos é tanta que a administração do terreiro está construindo um muro para isolar o espaço dedicado ao candomblé da invasão da Baixinha do Santo Antônio. Os bandidos, irritados com a obra, já avisaram: vão derrubar a construção.
“Eles já mandaram recado dizendo que vão fazer buracos no muro ou derrubar. Isso porque vai fechar o acesso deles a um campo de futebol usado por eles no fim do terreno. Lá, eles embalam droga, jogam bola, consomem o material entorpecente ou se escondem, quando a polícia está por perto”, conta um funcionário do terreiro que, com medo, pede para não ser identificado.

Arrombamentos
As marcas da violência estão por toda parte. As casas de pelo menos seis orixás já foram arrombadas e tiveram os nomes das entidades, feitos em cobre, arrancados da fachada. “Não tem mais nome nas casas de Oxum, Oxalá, Yemanjá, Ogum, Omolu e Xangô”, completa o funcionário.

De acordo com a Ebami (filho de santo mais velho em obrigações) Helena Silva de Menezes, filha de mãe Stella, morar ali ficou perigoso. “Posso listar para quem quiser quantas invasões já aconteceram aqui. Outro dia, chegando em casa com meu neto de 15 anos, um bandido estava na minha porta, com três armas. Queria vendê-las para meu neto por R$50 cada”, lembra, indignada.
Segundo ela, há uma semana o terreno é invadido quase diariamente. No dia 29, bandidos invadiram o quarto de Yemanjá. No dia 2, foi a vez de o quarto de Oxum ser revirado. Bandidos entraram pela janela e levaram R$5 que estavam como oferenda ao orixá. “Vou repetir o que diz minha mãe: é puro vandalismo. Esses garotos querem dinheiro para comprar droga”, avalia Helena.
“Eles já mandaram recado dizendo que vão fazer buracos no muro ou derrubar. Isso porque vai fechar o acesso deles a um campo de futebol usado por eles no fim do terreno. Lá, eles embalam droga, jogam bola, consomem o material entorpecente ou se escondem, quando a polícia está por perto”, conta um funcionário do terreiro que, com medo, pede para não ser identificado.
Suspeito
No domingo, outra história engrossou a violência no terreiro. O aposentado Fernando Costa, 60, morador de uma casa no terreno, foi a última vítima . De acordo com vizinhos, ele saiu de casa para comprar pão, foi até o portão do terreiro e percebeu que estava sem dinheiro. “ Quando voltou, a casa estava arrombada, a TV nova, de 14 polegadas, havia sumido e o salário dele inteiro, R$750, que eles escondia numa bíblia dentro do guarda- roupas também havia sumido”, contou o irmão de Fernando, Dario Costa.

Um dos seguranças do terreiro reconheceu o invasor do fim de semana. O caso foi registrado na 11ª DP (Tancredo Neves) e a polícia agora procura um homem, que é vizinho do terreno, identificado como Marquinhos. Os agentes investigam a relação dele com criminosos da invasão Baixinha de Santo Antônio.
Com relação ao crescimento da violência no local, o delegado titular Adaílton Ada disse que a polícia não pode fazer o papel de vigilante do terreno. “É uma propriedade particular. Não temos como tomar conta. Eles precisam contratar mais seguranças”, afirmou.
Bandidos roubam objetos sagrados e oferendas à orixás
De todos os ataques, dois são os considerados mais graves pela filha de Mãe Stella, a Ebami Helena de Menezes: o ataque à casa de Xangô e à casa de Oxalá. Na primeira, os criminosos invadiram durante um ritual, deixando a mãe de santo em pânico naquele momento. Dela, ele levou dinheiro, jóias e outros objetos de valor usados na decoração do quarto.

Já no espaço dedicado a Oxalá, os criminosos entraram após fazer um buraco na parede lateral da casa e também levaram, além de imagens e objetos sagrados, material de trabalho dos rituais, dinheiro de oferendas e jóias dos religiosos que cuidam do espaço. “Estamos perdidos, precisando de ajuda. Não se respeita nem mais a fé”, lamenta Helena, que deverá comparecer à 11ª delegacia ainda esta semana para prestar depoimento sobre os crimes.
Terreiro tem 100 anos de história
Localizado em São Gonçalo do Retiro, o Ilê Axé Opô Afonjá (em português, Casa da Força sustentada por Xangô) é um dos terreiros mais antigos do país, fundado em 1910 por um grupo dissidente do Terreiro da Casa Branca. Com espaços para celebrações religiosas e outros destinados à moradia, o terreiro é cercado por extensas áreas de vegetação fechada, que ocupam mais de 2/3 da área total de 40 mil metros quadrados.

No local, destacam- se o barracão principal, onde são realizadas as festas e a Casa de Xangô - orixá do terreiro, além da Escola Municipal Eugênia Anna dos Santos, em homenagem à fundadora do terreiro. Desde 1976, o Ilê Axé Opó Afonjá é comandado pela mãe de santo Stella de Oxóssi, hoje com 84 anos, notabilizada por combater o sincretismo religioso com a Igreja Católica
Histórico
Inauguração - Em 1910, por Eugênia Ana dos Santos, que hoje dá nome à escola municipal que funciona dentro do terreno do terreiro.

Sacerdotisas - Mãe Aninha (1910-1938), Mãe Bada de Oxalá (1939-1941), Mãe Senhora (1942-1967), Mãe Ondina de Oxalá (1969-1975), Mãe Stella de Oxóssi (1976 até hoje)

Tombamento - O terreiro Ilê Axé Opô Afonjá foi tombado como patrimônio histórico nacional pelo Iphan em julho de 2000.
publicado em Além da Notícia
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Pior do que ler isto aí, é ler o suposto jornal baiano (Correio da Bahia) fonte da informação dizendo que "os ladrões não tem mais medo dos orixás". Como se segurança pública e má distribuição de renda fosse culpa de outros seres e não os humanos.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Sabe?

Sabe como chama o sorvete de chocolate com pedaços de chocolate? Chocolate africano.

Sabe como chama saudade de uma pessoa só? É vontade.

Sabe o que eu tenho? Não é preguiça, é lassidão. E eu me entrego tanto...

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Do jeito que sua nega gosta.

Hoje não fiz nada o dia inteirinho que deus deu. Não fazer nada é ficar em casa, escrever cartas e textos, dormir, dormir, comer, conversar com mainha. Não ir à praia, enfim, nem cinema. Nem amigo chamando para ir ao Pelourinho. Isso incomoda um pouco, mas incomodava mais no começo das férias. Me sentia meio inútil. Mas a gente acostuma com o que é bom. Ficar sem fazer nada. É bom ter algo para fazer - eu queria ser escritora por que sonho que algum dia na vida eu poderia ficar só escrevendo na maciota, nada tipo mil livros por ano, miacoutamente falando - é bom não fazer nada para fazer o que quiser.

Mas quero ser diplomata.

Escritora.

Cantora.

Dançarina.

Professora de pilates (inspirada no filme As Leis de Família, de Daniel Hirzman).

Eu escrevi certa vez um conto quando estava aqui em Salvador. Perdi o rascunho. Era um texto sobre mangas e desejo. Manga è sempre bom para falar de desejo, vai saber. Mas eu morava em outra casa. Era outro calor e outro jeito de sentir o mundo. Aqui não sinto a mesma coisa. Se um dia encontrasse o rascunho... lembro vagamente da sensação quando escrevi o conto, um dia, se ela passar por perto, aprisiono o sentido e tento escrever coisa parecida. Là era tenso, aqui è mais calmo. Mas nem por isso menos desejo.

Fui eu quem parei para enxergar outras coisas. E o desejo mudou.

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Minha vó diz:

minha fia, como passou de ontem pra hoje?

Eu lembrei do Ano-Novo. As pessoas me perguntam como a gente passou a noite do ano-novo e eu digo

dormindo

Elas não gostam muito. Em qualquer outro dia do ano, seria comum.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

As plantas de Dona Lindú.

Uma cena no filme Lula, o filho do Brasil me fez chorar. Nada não. É a hora em que Dona Lindú recebe a notícia que seu filho Ziza foi preso. Ela está fora de casa, num pátio externo, lado esquerdo da casa. Ela chora, e na sua frente, muitas plantas. Fiquei pensando na doçura da cena, por que essa coisa de ter planta em casa parece coisa de antigamente. Muitas plantas eu digo, e não uma plantita aqui ou ali. Pensei como a cena foi montada, quem deu ideia das plantas, a feliz ideia, agora o filme vai, pensei eu, digo, emplacou, não ficou fake nem apelativo, é só ela chorando e as plantas, entendam o que quiserem, fui eu quem entendi assim. Talvez ninguém ligue para isso. Talvez apenas eu perguntasse isso numa entrevista coletiva com o diretor. Talvez nem ele soubesse responder.

Fiquei emocionada só por que lembrei de minha mãe – hoje ela voltou para casa serelepe por que encontrou uma muda de uma roseira na rua dando sopa, veio trazendo animada me contando como é que a planta vai crescer, onde vai por, detalhes. Fiquei lembrando da minha casa cheia de plantas. E como essa cena diz muito sobre Dona Lindú e Caetés. Em Pernambuco e Bahia, em pessoas que gostam de plantas e não, isso não é bobagem.

Quem cresce vendo planta e bicho crescer não consegue se desvencilhar disso fácil. Tenho por perto pessoas que são assim, que saem da roça e substituem o bode que criavam por algum animal doméstico – fiquei surpresa quando uma aluna minha de seis anos disse que tinha uma galinha que se chamava Brenda –, vão se arranjando com essas mudanças que a cidade grande traz, para não empedrar o coração, para não esquecer de vez como é a canção e a história com final feliz.

Eu cá no meu canto fico me perguntando quando e onde foi que a gente perdeu essas coisas todas. Esses costumes, conexões. Fico me perguntando também onde viveram quando crianças as pessoas que hoje acham tudo isso uma grande bobagem e não veem sentido na vida. Bom, não ver sentido na vida pode até ser compreensível para alguém que pensa assim.

Aproveitando o ensejo, vem aí O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro.

terça-feira, janeiro 05, 2010

A-pegação.

Me apego, me apego. Números, cadeiras de cinema, copinhos de café. Presenticos, adesivos, pedacinhos de papel, letras. Sou uma romântica inveterada, embora não acredite no amor. Sou uma velha rabugenta também. Não me peçam para trocar o número do meu cartão de dois anos atrás – eu quero que seja o mesmo –, quando me roubaram a bolsa dentro de um restaurante eu fiquei triste por que minha carteirinha de natação mudou, minha identidade também, tinha foto de 10 anos atrás, tinha uma história, entende? Agora é desde 2009, e não tem graça nenhuma. Respiro fundo, eu que falo tanto em mudanças, me apego, me apego. Gosto dessas coisiquinhas por que talvez me lembrem mesmo com as mudanças todas de vida, de amor, de paixão e cidade, eu ainda continuo aqui, são minhas referências, mesmo café Bahia, mesma sandália de couro, nesse pedaço de papel sou eu e meu amigo de anos atrás, tenho medos de me dissolver.

Por que não, eu não sou forte. Ligo pra ele e minto coisas. Digo que estava meio alta. Mas resisto. Agora não faço mais isso não. Nem é porque mudamos de ano. É que digo para mim que criei vergonha na cara. Mas acho que criei mesmo. Num chora pelo que tu nunca teve, fia.

Escrever melhora. Conversar também. Mas tem gente que não gosta de conversar. Mainha gosta. Tem horas que eu não gosto. E aqui eu aprendo a conviver com essa diferença toda, dividir coisas e casa e quartos e computadores. Não é fácil. Mas é gostoso. É gostoso ter tentado e conseguir, outras vezes não conseguir. Esse balanço todo de tudo embala a vida. A gente quer ir dormir contente do serviço feito, mas nem sempre é possível. Aí tem o outro dia que tem mais coisas para se fazer. E você esquece da dor de ontem. Das decepções e das coisas que tinha para fazer. Tem coisa que era para fazer ontem. E ontem já foi... não dá vontade de fazer mais. Acontece.

Aliás, parece que a vida gira sempre nessa toada. Drummond até já disse isso. Vaievemviraporquetornaahistóriaésemprequaseamesma. Amor, ódio e uma pitadinha de inveja. Às vezes é só amizade. Acho que é a parte mais legal de tudo. Se você conseguir isso, bata palminhas e seja feliz.

Carne de sol.

domingo, janeiro 03, 2010

vintedez.

Não sou nacionalista. Matar e morrer pela pátria. Mas não gosto dessa classe mé(r)dia imbecil – perdoem-me a reiteração – que vive a falar mal do Brasil. Que aqui não presta, que as coisas não funcionam, essas coisas. Que nos EUA as coisas são assim, na França são assado... dá vontade de responder que eu gosto de cozido, principalmente o que mainha faz, mas fico na minha. As pessoas tem direito de falar o que pensam, eu mesma não falo aqui, não falo por aí quando me dá na telha?

Também não sou louca e digo vaiembora assim do nada. Mas as pessoas parecem que não sabem das coisas e não lembram que o Brasil teve a constituição de 1988 feita de um modo que nunca foi feita uma constituição no mundo, utilizando a tecnologia mais acessível da época – a tv’, como ainda é hoje – para divulgar o que estava acontecendo e como as pessoas podem participar.

E depois falam mal do Lula. Eu não tenho medo de falar que gosto dele, mesmo muita gente apontando os grandes erros que ele fez. Mas é comodíssimo – quis escrever comodíssimo mesmo, e não comodismo. Aliás, esse blog é revisado. Qualquer erro gramatical será sempre intencional –, a classe mé(r)dia adora aproveitar os bancos de universidade pública para virarem críticos de qualquer coisa, inclusive crítico do governo. Tem jornalista por aí que acha que isso é até mesmo um trabalho digno, de plantão nas escorregadas do Lula ou coisa parecida. Esqueceram-se que o presidente sociólogo com cátedra não-sei-aonde-e-não-me-interessa não abriu uma universidade pública em oito anos de mandato e ainda abriu as portas para que empresários como Ormetto (barão do café de Araras) dominasse o ramo educacional com essas unijoana, unipaula e unifernando – com o perdão a quem tem esses nomes – da vida. Se é preciso um presidente analfabeto para que a gente tenha universidades públicas abertas, filho de pobre chegando à universidade, espero que a/o próxima/o seja indígena e não tenha aprendido a escrever, quem sabe assim a gente recupera uma de nossas línguas-mãe, o tupi guarani, coisa que o Paraguai que é bem menor que o Brasil e teve metade de sua população masculina assassinada por nós conseguiu fazer com muita coragem e respeito às tradições, além de enfim, fazer a classe me(r)dia entender que sim, não se deve governar para os ricos, já que estes, quando a bomba estourar, tem jatinho para voar para Marte.

Ah, e não é chique falar que gosta do Lula também, sabe, em roda de amigos. É pobre, é out, é brega. É a burrice da classe mé(r)dia que quer contaminar o proletariado, empregadas domésticas que não entenderam ainda que elas são bem mais importantes que seus patrões e ficam repetindo as asneiras deles. Elas tem pena. Mas um dia, não terão mais. Ihaveadream, eu diria.

Filmes apelativos à parte – para o qual Lula vetou subsídios públicos, diga-se de passagem – eu gosto dele. E não tenho a mínima vergonha de dizer isso.

Engraçado, mas essa matéria aqui não foi capa de jornal...

quinta-feira, dezembro 31, 2009

31 de dezembro de 2009.

Gostando ou não, a gente acaba um monte de coisas quando o ano acaba. A gente programa para não fazer algumas coisas, para fazer um monte de coisas novas, a gente se promete. Mas nunca dá. Por isso, não fico paranóica com projetos para o ano seguinte. Vou devagarzinho vivendo. Acho mesmo que seria ótimo se na noite do dia 31 de dezembro todo mundo ficasse em silêncio, nas suas casas, como nos outros dias. Dormindo, lendo, cozinhando, sei lá, mas em silêncio. Ia ser bem diferente, divertido.

Essa coisa de Ano-Novo põe a gente numa expectativa e tal, acho até gostosa essa sensação que dá de recomeço. Mas ela não pode ser falsa. Muitas vezes é só fogo de palha e aí não tem graça nenhuma. Toda hora a gente pode recomeçar, pode perder e ganhar, desculpa, por favor, licença e obrigada. Tem coisa legal acontecendo o tempo todo, tem coisa que não espera 2010 chegar, sempre tem coisas.

E eu gosto delas.

Fico aqui pensando nele por estar aqui. Essa cidade cheira a saudade. Aí vem saudade de muitas coisas que eu finjo querer muito, até para querer voltar mais depressa. Eu construo os sonhos também, eu minto até para mim, para que pareça bonito querer alguém como quando eu era adolescente, ler poesia, lambreta e cerveja e ele na cachola. Combina mais. Mas ele nunca vai entender, e nem quer, e acho que nem eu, e talvez fim. Talvez exista só para escrever palavras desesperançadas, para mexer as coisas aqui dentro e botar perigo na vida, a gente sempre gosta de um pouco de perigo, aventura e desejo, excitação. Só não entendo por que ele me toma assim, arremata, arrebata. E não me redime. É simplesmente constrangedor esse sentimento. Mas é só para mim. E eu tenho certeza que por isso, nada acontece. Eu nem fico mais ansiosa. Eu fico sem entender só a sensação de que não precisava ser assim, que eu vou conseguir resistir, mas eu venho aqui e ele me toma de novo, e sempre, e mais. E sempre e mais, e nunca é diferente, por mais experiência que eu tenha na vida, por mais historinhas que eu colecione, é sempre a mesma droga de sensação de que poderia. Essa hesitação da angústia, essa poesia do gostar. É mais forte do que eu.

Tento não fazer nada além de pensar e escrever aqui. Mas às vezes, me perdoem, eu não consigo. Tento não estar presente, sair de fininho, sem proposições. Mas, creiam, é difícil. Igual bicho-de-pé de Gena Guimarães em A Cor da Ternura (livro): fica ali, coçando, e quando ele morre a gente sente falta, e quer coçar, é uma coceguinha boa de sentir, e depois, ele está ali, ao meu dispor, minhacoceguinha. Egoísmo? A gente nunca sabe amar mesmo. Desvontades.

Someaparecesomesomesomesomeaparecesorrisomesomesome!

Some... (!)

terça-feira, dezembro 29, 2009

godozinho.

Acabei de receber a ligação de um amigo. Nos veríamos numa praia aqui no interior da BA. Ele me liga e ouço barulho de metrópole. Me assusto. Voltou correndo pra São Paulo, a empresa chamou-o de volta no meio das férias – coisa que para mim só acontecia com executivo ou gente rica –, pagou a passagem dele por que só ele saber fazer uma coisa lá para eles. Ele tava zangado, mas orgulhoso. Imaginei o sorriso escondido nos becos da zanga. Ficamos conversando quando é que enfim iríamos conseguir nos ver. Cruzamos as agendas nos próximos dois meses para saber se enfim teríamos paz.

Aí caímos de lembrar nossa adolescência juntos andando de skate numa cidade pequena no sertão da BA – eu nunca me esqueci o shape que ele destruiu, mas acho que hoje um jantar paga tudo – quanto tempo, quanta coisa mudou. Me emocionei também por que fico pensando no quando somos importantes para a “locomotiva do Brasil”, mas ainda assim, somos vistos por muitas pessoas como micos de auditório – olha lá como ela anda/fala engraçado, baiano é sinônimo de gente brega – e ninguém nem imagina que ainda hoje, 29 de dezembro de 2009, as pessoas nos ligam, nos chamando para trabalhar nessa cidade que não para, não para, não para. Se antes era para construir o prédio, acho que talvez agora seja para fazê-lo funcionar. Mas ainda não nos deixaram em paz.

Esse post é em nossa homenagem, godozinho.

domingo, dezembro 27, 2009

Olha a minha cara descarada.

Estou aqui dentro de casa deitada na rede tomando vento e um bando de homem batucando na rua, cantando assim:
olha a minha cara
a minha cara
descarada
olha a sua cara
a sua cara
descarada
Vez ou outra um faz uma quadrinha
você diz que é malandro
malandro você não é
se você fosse malandro
não apanhava de mulher
Eita vita besta.
O sol na cabeça.
Eu tento fazer alguma coisa além de deitar na rede e ouvir um bando de homens cantando quadrinhas, mas não consigo. Não consigo mesmo.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Mainha e cinema.

Tava lembrando ontem que dia desses levei mainha para o que os intelectuais chamariam de "a primeira sessão de filme udi-grudi da vida". Foi muito bonitinho vê-la depois da sessão elaborando mil teses sobre o filme, sobre as cenas, os atores e atrizes... uma intelectual de carteirinha minha senhora mainha.
Nem conversou durante o filme.
Chique toda.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Ter nascido e ser Migh Danae.

(esse post dispensa comentários)

terça-feira, dezembro 22, 2009

Casamento.

Coco Chanel disse: Eu sei que nunca serei esposa de ninguém... mas é que às vezes, me esqueço Mighian diria isso também.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Chuva e lotações.

Quando eu pego essas lotações lotadas indo para casa de alguém aqui pros lados da Zona Sul eu fico pensando como a gente não desiste. É chuva, gente empurrando, desculpa, licença e obrigada, sorrisos, música alta, tudo. Tem tudo, menos lugar para enfiar o pé e se segurar, você segura no moço da frente com cuidado e vai, o motorista dá mais um tranco e empurra o de trás, devagar a gente chega. E eu fico pensando por que a gente não desiste. Depois, essa chuva toda. Encontro um menino que estava na sala que eu dei aula no começo do ano. Lembro dele, onde mora, conheço sua avó, sei o seu nome. Digo oi bem feliz para ele, beijo sua bochecha. Ele está feliz em me ver, ainda me chama de professora. Pergunto se passou de ano. Ele baixa os olhos e diz que não. Tento me segurar para não chorar na frente dele, abraço e digo, ah, liga não, não desiste, você é jovem, embolo as palavras, não sei o que dizer, queria dizer mais, mas ele continua de cabeça baixa e não me olha mais. Desço a ladeira chorando. Ninguém vai entender, mas fico pensando no que pode acontecer com aquele menino tão tímido e inseguro - lembro-me que ele sempre achava que não ia conseguir fazer nada direito - daqui pra frente. A chuva veio e molhou o rosto. Escondeu as lágrimas.

Pequena Princesa.

Sou eu, com meu asteróide e minha semente de baobá. O amor são umas pessoas. E sementes. Mas a gente sabe que baobá não é só coisa de Pequena Princesa. É força, sabedoria, coisa sagrada. Coisa para casa nova e solidão. (fico devendo foto de minha semente de baobá. O asteróide, ah, o asteróide é o meu mundinho todo)

O Pequeno Príncipe e nossa desleitura.

Entrei na exposição do Pequeno Príncipe (não vou pôr link aqui) achando que não veria muita coisa, e acertei. A moça me disse que eu levaria hora e meia para ver tudo, se fosse rápida. Demorei 10 minutos, se lembro bem. Percorri as coisas todas, não li as frases retiradas do livro, que com as imagens bonitas projetadas nos blocos recortados com as figuras do livro pareciam bem atraentes, mas eu só conseguia pensar no mundo de dinheiro que foi gasto para se fazer uma exposição como essa, talvez valesse mais a pena distribuírem em praça pública o livro para a criançada, não sei não. Eu não sou contra mega-exposições, mas fico pensando que às vezes elas não funcionam para nada... como essa aí. Nem tão bonita ela é, e nem consegue captar metade da graça do livro, que nem tão grosso é, qualquer criança, adolescente ou adulto lê em dois dias. Não quis ficar mais tempo por que me senti traindo o livro, aquele contrato de fantasia que a gente assina quando começa a ler uma história e que essa exposição bota de lado. Mas eu sou rabugenta mesmo e cada dia fico mais. Não liguem para minhas desrecomendações. Crianças pequenas acho que gostam de toda aquela ideia, não sei direito, mas custando 18 reais... bom, deixa pra lá. E foi pensando nisso que eu me peguei pensando no cinema. Como eu estou cada dia mais apaixonada por ele e vendo cada vez menos filmes. Por que estão chatos, por que em São Paulo em certos períodos do ano imperam os filmes franceses, por que eles todos se inspiram em contos ou narrativas já escritas (nada contra total, mas só pode se fazer filme desse jeito??). Fico pensando no último filme que eu vi que não era baseado num livro... e faz tempo... Desvarios.

domingo, dezembro 13, 2009

Vá.

Ed Viggiani.
Meu Olho Esquerdo, exposição do moço na Caixa Cultural, uma das melhores do ano.
Veja texto bom sobre as fotos do moço aqui.

Ruth de Souza e a infância.

Não dá para não chorar junto com ela, Ruth. No livro Ruth de Souza, Estrela Negra (Coleção Aplauso, Ed. Imprensa Oficial), Maria Angela de Jesus escreve Criança de seus dez anos, ela estava na casa de uma das famílias para quem a mãe lavava roupa, fazendo-lhe companhia. Na rua, um vendedor passa oferecendo mangas. - Olha aí, criançada, venha ver manga sem caroço. A dona da casa imediatamente responde: - Aqui não tem criança. Sem compreender, a pequena Ruth pensa: - Mas eu sou criança. Ao reler essa passagem, algum tempo depois, em nosso último dia de trabalho, quando já estamos no processo de revisão final dos originais, seus olhos novamente enchem de lágrimas. Para por alguns instantes e repete, como se fora a menina de 10 anos: "Mas eu sou criança" Fico pensando nisso e em como matamos todos os dias nossas crianças. Quando as ensinamos a ser adultas e quando não aprendemos nós, imbecis que somos, a sermos crianças. A conservarmos em nós o espírito infantil. Infantil hoje é sinônimo de coisa imatura, sem experiência. Pois eu prefiro ser infantil a ser perversa. E adulta. Sim, eu me recuso. Por mais que queiram dizer para mim que as gentes já não tem mais jeito, eu insisto, insisto por mim, pelas crianças, pelos bichos e paisagens: pelas coisas impregnadas de amor, como o único brinco que minha mãe me deu, como um presente ouro negro. Me recuso conscientemente a fazer parte do jogo sujo das adultices, do controle, da mesura, do comportado. Quero e vou sair do sério, fazer careta, gritar bem alto, subir no pé de árvore, deixar que a criança em mim voe e encontre lugares que eu mulher nunca encontrarei, cansada, amargurada, fragmentada, doída. Por que é só pelo amor às crianças que ainda vale a pena continuar lutando. E por mainha, é claro.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Abacaxi.

Quero uma rua que passe o moço que vende abacaxi. Que amola alicates. Que vende pão doce. Quero uma rua torta, onde os vizinhos se cumprimentem e tenha um senhor de idade sentado à soleira da porta todos os dias. E quando eu passe, quando eu estiver indo trabalhar, que eu diga "boa tarde", e ele desconfiado, demore dois segundos e depois me responda, com um sorriso, "boa tarde". Quero uma casa colorida. Com festa dentro e fora. Quero uma luz, um vinho, uma saída.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Outros feminismos.

Não, eu não quero. O feminismo que “nasce” com a sociedade capitalista só me trouxe problemas. Prefiro outros feminismos. Aquele da mulher que entende da luta, mas não acha que seu trabalho numa empresa é mais importante que o daquela senhora que ela contrata para ser sua empregada doméstica. Por que agora ela é uma “mulher independente” e não pode mais ocupar-se das “tarefas de casa”.

Ora, mas de que casa a gente está falando? Da casa dela! Se a casa é dela, as tarefas deveriam ser também, não? Pois sim, esse feminismo de araque só serve para que a máquina do capetalismo continue funcionando a todo vapor, e desse eu não gosto.

Fico bufando de raiva contra essa mulher que nasce com o capetal que se acha “a” gostosona e não sabe que os homens adoram o feminismo, contanto que dê mais lucro para eles! Ainda bem que existem outros feminismos.

O que não se divide pela classe social. O que entende que ser mulher não é trabalhar fora, cuidar da casa, dos filhos e do filho grande que é o marido – que dá mais trabalho por que já vem criado por outra mulher e cheio dos costumes demora mais a entrar no jeito. Se ser mulher é isso aí, desisto de tudo e vou-me embora. Se antes já fazíamos muito, cuidando da casa e das crianças e do marido, agora para ser mulher tem que trabalhar! E tem mulher que se gaba, acha mesmo que é isso aí, sua função é ser multi. Não pode ter tempo pro não fazer nada, acordar tarde e pensar na vida: ser mulher é ser tudo que era antes, com mais algumas qualidades: prover a casa e não fazer cara feia na hora do vamos ver. Entre a cruz e a caldeirinha, pulo fora e tomo banho de água fria.

Pior ainda é se as mulheres negras, historicamente já vistas como empregadas de forno e fogão, entrarem nessa paranóia e acharem que para ser mulher no século 21 precisa passar por essa bateria de exames. Entrarem nessa loucura de quererem ser “as melhores”: e as melhores, nesse caso, só alimentam a chama do capetalismo.

Ser mulher é respeitar seu corpo. Seu tempo. Seu compasso. Ser mulher é isso. É ser.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Mudança.

Lembro que no dia que saí da casa de Dona Noi, ela levou-me até a casa onde eu iria morar e disse pra moça assim: cuida bem dela, minha fia. migh é moça boa de viver, quem não vive com ela, não vive com mais ninguém Apego-me a essas palavras para ter certeza de que eu não sou uma pessoa ruim. Sonhei com barranco, água e avião. Dona Noi disse que é morte na certa. De gente que eu conheço, gosto. Sei lá. Abri a internet e vi que morreu Lombardi. Eu não gostava dele.

terça-feira, dezembro 01, 2009

Gravidez.

Foto de Adriano Mello para a campanha África em Nós. Dela eu não sei nada.
Só sei que é linda e despretensiosa.
Em tempos de dureza, a gente se encanta com as coisas bonitas que a gente topa pela frente.

sábado, novembro 28, 2009

Sábado.

Estou sem ideias, mas às vezes não quero escrever mesmo. Tem dias que eu quero escrever e não escrevo. E agora sem vontade, estou aqui. Enquanto espero um email terminar de completar seu arquivo, ouço uma música e penso que não gostei de saber que o Ilê vai fazer um bloco alternativo. Que não gostei mesmo. Mas tem coisas que gosto. Como exposição de fotografia. E ainda, o cinema. Estou vendo Ladrões de Bicicleta pela primeira vez. É um bom filme. Eu não consigo parar de ver nem quero que ele acabe, assisto aos pedacinhos e fico voltando, como na hora que o menininho fala com o pai que caiu no chão. O menino tem mais força que o pai o filme todo. Ele fala pouco e manda em tudo. As crianças é que salvam o mundo. Mas eu ainda acho que isso pode ser ruim. Pra elas, decerto, não pra nós. Como uma criança que vira e diz pra mãe o que ela deve fazer, não jogar lixo no chão e etc. Isso deve bagunçar a cabeça dela, mas tudo bem também. Ou não.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Horário de Verão.

Mainha me liga de manhã cedo, me acordando.
Ainda bem que em Salvador não tem horário de verão.
Eu amo 'ssa muié.

quarta-feira, novembro 18, 2009

Família.

Você tem uma foto de família bunitona como essa???

domingo, novembro 15, 2009

Declaração de Amor.

Às vezes as mulheres acreditam mais nas mentiras que os homens contam do que eles mesmos. Mas não é difícil ser mulher – eu mesma se voltasse, gostaria de voltar mulher todas as vezes para esse mundo, ou então queria voltar cavalo-marinho. É difícil viver, com todas as coisas que a vida tem. E se é difícil para mulher, é também para o homem, que fica muitas vezes esperando a mulher quebrar tudo para vir atrás segurando os cacos. Talvez eles pensem que não podem dar a cara pra bater, por conta da sociedade machista e todo aquele papo que a gente conhece. É quase uma súplica masculina, venham, nos ajudem, comecem a revolução sexual, sem vocês não conseguiremos. Fogo é que tem horas que cansa demais. Por que na história, as honras vão sempre para eles, não importa o que se faça. Quando se escreve o nome de uma mulher ali, todo mundo fica admirado e agradece com algo que deveria ser, por si só, regra. Quer um exemplo? Eu sempre achei que gostava tanto de ler por causa de meu pai. Só de meu pai. Pensava assim quando queria imaginar que com tudo de feio que ele fez com a gente, tinha algo do que me orgulhar. Mas mainha me contou esse fim de semana que na verdade, ele tinha parado de estudar e ela, para incentivá-lo, matriculou-o na escola novamente e começou a estimulá-lo à leitura quando percebeu que era um caminho possível para educação dele, já que não era muito chegado a educação formal. Meu pai se apaixonou pelos livros, isso é verdade. Mainha já não lia tanto, ocupada que estava com os afazeres domésticos e com a gente. Afinal, ela também precisava ensinar-nos a aprender. Todo mundo aqui em casa é meio fanático por leitura, e até meu irmão, que não gostava muito de escola também – desconfio, pelas conversas que tive com ele, que achava que os professores subestimavam os alunos e por isso, ele foi perdendo o interesse. Gostava apenas de um ou dois professores que realmente davam aula – lia bastante para um garoto de 18 anos. E é justamente isso que me preocupa: quantas e quantas mulheres já nao leem mais tanto por conta de outros afazeres e a história “esquece” de contar o quanto elas foram importantes para a compreensão que se tem do mundo? São fraquezas, mas é também por que este mundo em que vivemos é moldado em bases masculinas e portanto, o homem não precisa, quando as letrinhas do filme sobem, dar créditos às mulheres – fico aqui pensando nos homens que fazem isso publicamente para muitas vezes receberem elogios e suspiros de mulheres presentes, mas no dia-a-dia, não mudam suas práticas machistas. Essa coisa de ler foi e é fundamental para minha vida. Hoje as pessoas ficam meio admiradas com o fato deu conseguir escrever bastante em pouco tempo, digo, em momentos onde preciso fazer um pequeno texto ou um resumo – um curso de formação, por exemplo. Isso veio da observação do mundo à minha volta, veio da leitura, veio da escrita – mainha achava o máximo a gente ter diário e escrever tudo sobre a nossa vida pessoal neles, e para mim escrever diários foram grandes estímulos para a organização do pensamento . Fui perguntando para mainha por que isso de estudar tanto. Ela acabou me contando uma outra história. Uma tal de tia Amália, na década de 60, interior da Bahia, na roça do Berimbau, para ser mais exata. Essa história eu conto depois. É dureza posicionar-se contra o machismo, pois como tudo na vida ele se metamorfoseia e comparece de outros modos e maneiras. Se antes o homem sentia-se ameaçado quando as mulheres trabalhavam em subempregos e o machismo teve de ser combatido com outras armas, hoje as mulheres, que estão disputando os espaços de poder se sentem compelidas a “cederem” aqui e ali para aqueles “colegas” de trabalho – “estamos todos no mesmo barco”, eles dizem, mas você sente que não quando esses mesmos colegas não poupam adjetivos para qualificar (ou desqualificar) mulheres em geral – “não é com você, veja bem, mas a chefe de tal seção é realmente uma piranha”; se não cedermos, vai parecer que estamos sempre em guerra contra tudo e contra todos, e aí, já sabe, os homens inventaram também um modo de desqualificar as mulheres que assim se comportam: “ela é mal-amada, faz tempo que não transa com ninguém, deixa ela”. Na hora do vamos ver, os homens apelam e justificam suas atitudes por conta das mulheres que são agentes do racismo – ah, mas se a gente não come a gente é viado, mulher gosta de homem safado, etc – e esquecem de balizar suas práticas em respeito às mães que os criaram muitas vezes sozinhos, em respeito àquelas mulheres que encontraram na vida e que lhes mostraram que as coisas só podem funcionar se estivermos junt@s, deixando de lado as picuinhas e desavenças pequenitas. Eu só queria escrever isso tudo por que eu me perguntava muitas vezes por que fiquei tanto tempo sozinha. E agora mais do que antes, mais do que nunca, entendi que era justamente por não ter encontrado um interlocutor com quem eu pudesse conversar sobre tudo isso de maneira inteligente, por não encontrar alguém que soubesse que a luta feminista (polifônica em sua construção social, vamos entender. Não há uma luta feminista, mas lutas, e feminismos) não é besteirada de mulher mal-amada, que não fosse dormir de cara feia depois de cada discussão acalorada sobre o que é ser mulher. Ainda bem que enfim, encontrei. Essa coisa toda que escrevi é, na verdade, uma declaração de amor.

sábado, novembro 14, 2009

Acarajé.

Acarajé todo dia.
Sentar ali e ficar vendo a vida dos outros.
É boa coisa.
Praia todo dia.
Nem que seja só um tiquinho.
Enterrar os dedos na areia da praia do Canal - minha praia e pôr-do-sol bonito por que desconhecido.

terça-feira, novembro 10, 2009

Futuro.

As crianças não são o futuro. Elas existem. São o presente. Um presente. No futuro, se a gente não cuidar rápido disso, vão se tornar adultos chatos como a maioria de nós. Por isso, criança é presente.

domingo, novembro 08, 2009

Chore a chuva.

Já fez isso, ouvir Jairzinho cantando choreachuva e a chuva chovendo? E aí quando ele completa choroqueassimeunãochorosónão é que eu desabo.
Tem gente que sabe contar histórias como ninguém. Eu só queria ficar ali escutando e perguntando mais para não acabar a conversa.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Arruda.

Trouxe de Salvador, mainha pegou na barraca de Rose, que faz pouco tempo, perdeu a mãe. Olha pra mim com cara triste e diz
é sua mãe, né, nega, aproveite, vu?
Fiquei sem ter o que falar, mainha emendou conversa, roubou arruda. Arruda ainda aqui, cheiro espalhado no quarto. Mainha em Salvador.
Rosa, tristeza.

Besouro?

É uma pena.
Locação linda, muita grana desperdiçada. Gente bonita e inteligente, câmera frouxa e textos sem tesão. Tem coisa boa? Tem sim, mas é pouco demais para honrar Besouro e sua história, o Recôncavo e a beleza. Quem lê aqui sabe que eu não quero mais ficar falando de filme. Mas ontem o Besouro me deixou meio deprimida.
Fiquei pensando em mim, no povo preto, na minha vida. Não consegui dormir direito, emendei o filme do Denzel, O Grande Debate, consegui um pouquinho de sono no fim da madrugada.

domingo, novembro 01, 2009

Pessoas e caixas.

Sou metódica toda com sentimentos, emoções, coisas e pessoas. tudojunto. Não sei onde pôr alguém que vai-e-vem, vagueia na minha vida para lá e cá, mas eu quero, eu quero essa sensação pra mim, quero roubar esse instante bonito de vida, quero viver pra sempre o momento da pergunta, da dúvida e do suspiro, sei que não dá pra fazer isso, mas quero-quero e não deixo que ele vá embora, pergunto, duvido, chamo, reclamo, sorrio, mas não quero perder, mesmo não tendo uma caixa pra colocar as coisas dele que estão na minha cabeça eu preciso dele para continuar acreditando. e.fim.

quarta-feira, outubro 28, 2009

Epifania.

O segredo. Hoje eu tive uma epifania. Sons vindos não sei de onde. Não me pergunte o que é. Nem eu sei (só queria usar a palavra).

segunda-feira, outubro 26, 2009

Aniversário.

Quem me conhece sabe que eu adoro número ímpar.
Vou fazer 29, e, pela primeira vez, me peguei fazendo lista de presentes.
Nunca liguei pra presente, mas esse ano, defini presente assim: "tudo aquilo que você quer, mas acha supérfluo demais para comprar". Mas, contraditoriamente, na minha lista - que só vai ser feita, nunca divulgada - só tem coisa pra usar, nada de supérfluo.
É que na verdade, só descobri agora, faz bem saber aquilo que você gosta. De ganhar, de comprar, de ter, de perder.

É isso.

Balancê.

Procurem Sara Tavares. E sejam felizes.
Você tem alguma mandinga para seguir vivendo? Quando as coisas parecem não ter muito sentido, no que mais você se apega para continuar?
Sorriso de criança?
História de avó?
Medo de trovão?
Sempre alguma coisa que faz a gente perceber que somos pequeninos. Dá pra entender?
Talvez na insignificância das coisas, more o estar bem.

sábado, outubro 24, 2009

Sara Tavares.

Quando você pensa que não tem mais saída, encontra Sara Tavares - por causa de um amigo. Aí você acorda, sorri, mais um dia, é possível. Qualquer coisa dela é maravilhoso. Algumas coisas que ela canta e como canta me lembra Salvador, uma Salvador que não me sai do pensamento. Que nem sei se existe mais, mas era a Salvador dos meus 10 anos voltando da escola o sol na cabeça, olhando as pessoas na rua, chupando manga, essa sensação. As sensações te perseguem? A mim sim, e tem coisas que eu nem quero e nem gosto mais, mas gosto da sensação de. Como quando alguém volta querendo ser amigo e você nem quer, mas você gostava do jeito que ele sorria com o canto da boca, como mexia a orelha ou te fazia rir caindo da cadeira, daquele jeito e aquela sensação ninguém mais consegue fazer, e você quer, mas esquece que com a sensação vem um monte de coisas-pra-fazer, responsabilidades... mas você não quer mais nada, só reviver as boas conversas, e quer esquecer que a outra pessoa pode pensar que é um novo começo... e começa.

sexta-feira, outubro 23, 2009

Senhorinhas.

Escrevinhando no computadô e ouvindo Ben Harper dizer umas coisas em inglês mas que dá pra todo mundo que sabe dizer "i'm fine" entender eu me sinto bem. Levanto, desligo o cd', ponho um disco para dançar, eu me sinto bem.
Ontem eu estava num ônibus ouvindo uma senhora conversar, como eu gosto das senhorinhas, eu me divirto com elas e elas comigo, a gente se entende, acho que no fundo eu sou uma senhorinha também, por isso que gosto de passear com mainha de braço dado vendo os preços das coisas nas lojas, sem comprar nada. Tem loja que eu não entro, mas é só de birra, leva tempo mas eu descobri que todo mundo tem o seu jeito de enfrentar as coisas do mundo, tem seu jeito de organizar as dores, ou para não doer, inventa um jeito, todo mundo faz isso e eu não sou diferente, por que sou eu e sou todo mundo o tempo todo.
Mas eu tava dizendo da senhorinha, eu adoro essas senhorinhas que sentam e começam a conversar com você sobre a vida delas e ficam dando conselhos sobre coisas que nem conhecem direito, você fala metade da frase e ela diz que já viveu aquilo, eu acho graça e continuo falando, ela ouve sim, e no final tudo que ela fala se aproveita, eu gosto mesmo daquela hora que eu levanto e ela fala vai com deus, acho bonito, essa senhorinha falou deus te acompanhe pra lá, por que ela ia pra outro canto, eu ia descer antes e ia pra lá, pra outro lugar.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Mostra, amostra.

É caro, tem jeito de gente cult-chata, mas eu não resisto, eu vou. Com o canto do olho olho a lista de filmes e fico louquinha. 33ª Mostra Internacional de Cinema Fiquei aqui lembrando da primeira Mostra, quatro anos atrás. Eu já estava já dois anos em São Paulo - cheguei em outubro de 2003, mas nunca tinha ouvido falar dela! Também, eu não habitava o quadrilátero "augusta-consolação-paulista-e mais qual você quiser", então seria difícil saber de alguma coisa mesmo. Mas me apaixonei de cara e viciei. Todo ano guardava pelo menos duas folgas no trabalho para ir à Mostra. Não é que as coisas mudaram, agora eu só finjo que não ligo tanto. Ontem, caminhando por ali, fiz o que mais gosto, que é olhar as pessoas que vão e vem com crachás da Mostra, camiseta, material, pessoas que você nem pensa que é tão viciado quanto você. Mas como todo mundo sabe, todo evento de luxo é patrocinado com dinheiro público e por isso irrita pagar 18 reais por cada ingresso.

Mulher solteira procura.

Casa ou kitinete para alugar na região do Butantan (gosto mais de Butantan que Butantã), meio mobiliada, com azulejos claros e lugar por onde passe a luz do sol. Vizinhança agradável e que não me deixe completamente só.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Angela Davis.

Angela Davis, ontem e hoje.
Não reclamem. Estou escrevendo pouco. Mas é que tem tanta coisa boa que já foi escrita que fico com uma preguiiiça. Hoje vou só falar de Angela. Amanhã posto mais uma mulé retada.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Denis Sena, o menino que fez estrelas na minha calça branca.

quarta-feira, outubro 07, 2009

avemaria.

É tanta coisa acontecendo, dá nem tempo. Ontem Les Nubians, amanhã voo, sábado cinema com mainha e domingo samba de roda. Eita vida besta. Segunda? Dia de praia que eu não conheço ainda, do lado da Praia do Canal. Itapoan City, meu lugar. Toda vez que alguém novo me diz que lê o blog, eu abro a página como se fosse a primeira vez. Fico tentando imaginar o que pensam de mim e o que eu pareço ser, o que eu quero que pensem e o que eu confirmo com essas letras. Ainda não sei. Mas é sensação boa de criança, ver o mesmo mundo com outros olhos. Como ele que me diz é mesmo? noooossa, caramba! Como se ainda se assustasse com as dores. Ele é um homem, minha gente, mas é uma pessoa que me faz feliz. Conseguiram, enfim.