Você que me lê, me ajuda a nascer.

domingo, julho 12, 2026

Livros.

Acabei de ler cinquenta livros infanto-juvenis e mais alguns romances por conta de um trabalho. Fiquei pensando que ser editora não seria nada mal. Eu poderia fazer isso com prazer: ler um livro para avaliar, opinar, essas coisas que imagino que uma editora faz.

Mas eu nunca tive acesso a essa profissão. Quando eu estudava, apesar de gostar muito de ler, eu nem imaginava como era para um livro chegar até mim, tudo que ele tinha de passar na vida... fico me perguntando quantas mais mil profissões existem e eu nem sei. Quantas delas eu também gostaria muito, como essa?

O que a gente não sabe, não existe, não é mesmo? E a internet não resolve tudo, porque você precisa saber que existe para procurar, pelo menos saber alguma coisa, uma coisiquinha de nada, como eu que aprendi sobre o brutalismo por causa do nome de um filme.

A vida, o mundo, seguem sendo coisas incríveis para mim. Eu preciso voltar a escrever sobre isso, sob pena de pensarem que minha gana de viver e alegria do mundo acabaram. Não. Tudo isso continua aqui, pulsando muito (ainda mais num domingo pela manhã, depois de preparar cartas e encomendas). 

Caixa de lápis de cor e hidrocor.

Eu demorei para entender como aquele momento de dividir o lápis de cor e o hidrocor na escola pode se tornar numa das primeiras aulas sobre socialismo, relações humanas e política. Na escola em que eu estudava,  a hora de desenhar e pintar eram os momentos em que você precisava negociar, aprender a dividir e esperar, ou seja, tudo que você mais precisa saber quando cresce. 

Lembro que a gente começava a pintar, mirava num outro lápis e ia dizendo "quero a cor xis", porque se caso alguém a pegasse enquanto a gente pintava com a primeira cor, já ficava sabendo quem estávamos na fila. Tinha também quem deveria apontar o lápis - que invariavelmente aproveitava para conversar com outra pessoa que também estava apontando -, algo que pela ética do uso em comum deveria ser sempre depois que a ponta do lápis quebrava, ele nunca deveria ser devolvido à caixa sem ponta.

Os recipientes que abrigavam os lápis tinham decorações diversas e dependia do humor e do nível de cansaço da professora com o ofício. Elas poderiam estar gastas - anos anteriores - ou novas, poderiam ser em latas ou caixas. Lembro especialmente de uma em algum dos anos que tinham desenhos da gente feitos no ano anterior (sim, a professora pediu nossos desenhos para a nossa antiga professora). Até hoje me pergunto se só eu achei um desenho meu ou mais gente também achou, eu não lembro. 

Esses momentos de compartilhamento eram embotados pela ideia de que todo mundo ganharia uma caixa no começo do ano. A ideia de ter uma caixa de lápis de cor e uma de hidrocor só para a gente parecia muito sedutora - assim como tudo que o capitalismo promete - mas o encanto acabava quando a maioria das professoras, para não estimular o individualismo, colocava todos os lápis de cor e hidrocor juntos na mesma caixa, a despeito da cara feia das famílias. Ah, os anos 90 e nossa vontade de construir um projeto de nação democrático! Para onde foi esse desejo?

Quando me tornei professora, segui os passos das minhas professoras e continuei juntando os lápis de cor e hidrocor em recipientes todo começo de ano. Em alguns momentos, a gente usava aqueles pedacinhos de lápis e giz de cera (giz era algo que não era tão comum na minha época nas escolas que estudei) alguns hidrocores que ainda funcionavam dos anos anteriores, esperando dias melhores (famílias que enviavam materiais, compra pela secretaria ou verba da Associação de Pais e Mestres). Comecei a ver ainda mais esse momento como um espaço favorável à socialização das crianças e o estímulo ao compartilhamento, além da arte da negociação que está intrínseca em toda relação social.

Hoje, em casa, ainda tenho um recipiente com lápis, giz e hidrocor, todos juntos, misturados, como aprendi e como acredito que tem que ser. Deve ser por isso que tenho tanto ódio de classe e do discreto charme da burguesia.

Lobos.


 

quinta-feira, julho 09, 2026

Estado? Felicidade.

Cheguei à academia e uma senhora disse

eu gosto de vir no seu horário, você me anima

Para quem anima pessoas, é animador ouvir isso. Foi aí então que fiquei mais elétrica, cantando, dançando e fazendo piadas sobre futebol e séries de treinos.

Voltei para casa pensando em como estou realmente vivendo uma fase de felicidade na minha vida. Vou e volto da academia às 7h da manhã cantando no carro e alguém me disse

eu vejo você, você sempre passa aqui na frente cantando ao volante

E eu me dei conta que é isso mesmo. A felicidade transborda e não é porque tudo vai bem. Sigo com medo de a extrema direita voltar ao poder, sofro vendo pessoas sem ter onde dormir e me desanimo com a corrupção que impera por estas bandas desde que Pindorama virou Brasil. Ouço podcasts sobre médicos de IA e sofro com a desinformação, essa doença que assola o mundo

Mas eu escolhi acreditar no amor e nas pessoas. É um ato completamente intencional e lúcido de minha parte acordar todos os dias de manhã e escolher que vai dar certo. Percebi que isso é serio quando eu estava achando que o Brasil ainda empataria da Noruega mesmo depois do pênalti marcado com três minutos de jogo a mais do que o previsto no fim do segundo tempo. Eu segui olhando para a TV' esperando algum milagre. Se isso não é acreditar, nada mais é.  

Nessa viagem louca de esperar sempre o melhor, coisas incríveis acontecem todos os dias. Eu vibro com cada uma dessas coisas, as mais estúpidas, como ganhar mais gigas na troca no conserto caro de uma placa de um laptop que caiu no chão. O que eu posso fazer? Reclamar e não consertar ou me divertir com cada coisa que acontece? 

Eu sou grata. Sempre digo às estudantes: se você não está presa, tem onde dormir e o que comer, está tudo bem. Você precisa encontrar quais são seus maiores medos e esses três são os meus. Mas eu tenho certeza que alguém que está preso hoje pode me dizer que ainda há vida mesmo dentro da prisão (como também posso encontrar alguém que reclama da vida que tem fora da prisão).  

Lendo isso aqui antes de postar, parece piegas, meio Poliana preta idosa (e olha que nunca li o livro). Talvez seja mesmo. Talvez eu seja essa pessoa piegas e que para muita gente vive num mundo paralelo. Na verdade, talvez para mim mesma também. Talvez a única coisa que eu poderia acrescentar nisso tudo é que sim, eu quero ser assim e sim, eu realmente acho que está dando certo para mim.

Alguém me disse que eu não pareço inautêntica e isso me basta.

quinta-feira, julho 02, 2026

domingo, junho 28, 2026

sexta-feira, junho 26, 2026

segunda-feira, junho 22, 2026

sábado, junho 13, 2026

Lendo o roteiro de Dark Horse (o filme do Bolsonaro), Daniel Duncan.


 

Um bebê vem aí, de John Burningham.



Poderia ser legal, mas é adultocêntrico demais para o meu gosto.

 
John Burningham

A alma secreta dos passarinhos, de Paulo Venturelli.

Duas coisas: é preciso muito tempo para escrever livros lindos para crianças e quando li, só pensei: poxa, porque não escrevem livros lindos assim com meninos negros?


Paulo Venturelli

 

Os vizinhos, de Einar Tsarfati.


Livro lindo, lindo. 

Einar Tsarfati

 

Ombela: a origem das chuvas, Ondjaki.



Eu tou desgovernada de ler esse ano. Não entra na frente desse trem.

Ondjaki
 

Tetra: Acreditar de novo.


 

Neca (romance em bajubá), de Amara Moira.

 

Eu amo Amara. Descobri não sei quando nem sei como, aí li o primeiro livro e fiquei assim. Eu gosto de ler tudo de uma autora que eu gosto, então ela publicou coisa nova e eu já fui ler (preciso ler o novo de Obioma, tá na lista, na lista).

O livro está todo escrito em bajubá, como a informação na capa mostra. Amara questiona a sexualidade de autores famosos do mundo das letras (ela mesma doutora na área) de um jeito que só ela sabe. Questiona a sexualidade de todo mundo, não deita para ninguém, nem mesmo para as travestis que conhece de tua, de quando ela "se eu fosse put(r)a". 

O que eu nunca ia saber é que meu conhecimento de italiano e yoruba ia me ajudar tanto em entender bajubá. Fiquei tão feliz no fim do livro por ter conseguido pegar o jeito da leitura (a fluidez, a rapidez que o livro pede) que até ouvi um cd' inteiro de Laura Pausini (e cantando todas as faixas) malhando perna como se não houvesse ninguém me escutando. 

Perchè ancora mi ricordo della lingua, incluso dei ocó che ho conosciuto in Italia

Amara Moira

sexta-feira, junho 12, 2026

quinta-feira, junho 11, 2026

O robô aspirador e a IA.

Comprei um robô aspirador. Achei que minha vida estivesse resolvida e que eu diminuiria meu trabalho doméstico. Qual o quê, nada. Em dias de usar o bicho, tenho de colocar tudo de pernas para o ar e limpá-lo muito bem,  o que me faz ter que planejar o dia de varrer a casa. Ele precisa estar limpo e o chão, livre de obstáculos. Ainda assim, ponho o danado para trabalhar e, no meio da casa, ele encontra algo para se enroscar. Não me pergunte o que, mas sempre sobra algo. Por vezes, ele consegue se enfiar onde não deve e toca eu parar o que estou fazendo para ir lá acudi-lo. 

Em outros momentos, a bateria acaba e ele está no meio da tal varredura. Me diz que vai voltar para a base para carregar mas nem sempre volta para onde estava e começa tudo de novo, ou seja: a parte que está limpa novamente vai ser limpa e a que está suja... bom, temos de confiar que dessa vez ele está carregado o suficiente e vai conseguir dar conta da casa inteira.

Porque eu disse isso tudo? Porque esse robô me iludiu. Quando o comprei, achei que faria esforço zero e o que faço hoje é esforço cinquanta por cento, comparado ao que fazia antes. Não sei se gosto. Acho que sigo preferindo varrer e passar pano ouvindo um podcast por cerca de trinta minutos do que passar quatro horas (sim, se for contar todo o tempo que gasto fazendo isso tudo que falei, dá isso ou mais) ouvindo aquele barulho turbo nos meus ouvidos. E eu nem acho que varre bem como eu pensava. Sim, moro no mato e a sujeira do chão onde vivo é diferente do chão de um apartamento no vigésimo sétimo andar. 

Talvez seja, mas eu disse isso tudo mesmo que eu vejo minha relação com esse robô bem parecida com a relação que tenho com a tal inteligência programada (ou não sei qual o melhor nome). Não uso para escrever nem para ler, mas quando escuto o que deve ser feito para ser usada com integridade, eu acho que ela é só mais um robô me iludindo. Só mais um, dos milhares que existem por aí.

Entre escrever, colocar parágrafo por parágrafo num programa para ver se tem erros de gramática, revisar, reescrever, eu prefiro assim: rápido e rasteiro, sem respirar, direto na caixa do blog e voltando para consertar qualquer espaçamento a mais depois. 

Pode ser que eu mude de ideia? Sim, óbvio. Adoro ser desafiada Mas não será hoje (nem amanhã, creio eu).

Velhos Bandidos.


 

sexta-feira, junho 05, 2026

Muquiranas Brasil.




 

Capoeiras.


Capoeira é a memória física do povo preto. Boa, né? Isso que se ouve quando a roteirista sabe do que está falando.

 

Rye Lane: um amor inesperado.


 

segunda-feira, junho 01, 2026

Invejosa, T4.

 


Míghian Danae, LiteAfro.

Um dia eu pesquisava autoras ali e, noutro, eu estou . Das surpresas escondidas dentro de uma segunda-feira à tarde.

A contagem dos sonhos, Chimamanda Ngozi Adichie.

 

Ganhei este livro de presente no fim do ano. Li aos poucos, devagar e sempre. Eu gostei? Gostei sim, gostei muito. Agora, talvez seja o livro de Chimamanda que eu mais goste. Antes, era o Hibisco Roxo. Mas não sei. Só queria um pouco menos imigração, mas parece que não tem muito jeito: esse é o mundo onde ela vive, numa ponte entre Nigéria e Estados Unidos. Eu gosto de coisas que ela percebe e escreve sobre as diferenças entre Nigéria e EUA que a gente não consegue mensurar e parece intangível, mas ela vai lá e descreve. Ela é muito boa nisso, como quando explica o ranço de palavras em inglês dos Estados Unidos ou um meneio de cabeça. Ela é realmente muito boa nisso, uma observadora dessas diferenças pequenas mas que agoniam a gente no dia a dia. 

No final do livro, ela explica coisas que poderiam não ter sido ditas, mas que, quando ditas, desvelam tanta coisa da literatura e da gente que sempre fico em dúvida se queria ler ou não aquilo tudo. Me sinto nua. Com frio.

Mas tudo bem. Como a paixão e o calor, essas emoções também passam. 


Divórcio em família.


 

Territórios - Sob o domínio do crime.


 

domingo, maio 17, 2026

Sanduicheira e fim.

Ganhei de presente uma sanduicheira usada de um namorado de minha mãe há muito tempo atrás. Ela deveria ter uns dez anos de vida quando chegou em mim e deve ter mais ou menos um doze anos que ela está comigo. Sim, é isso mesmo. Ela funcionou todo esse tempo muito bem, ainda que não tenha sido usada todos os dias durante esse tempo.

Hoje ela deu aquele último suspiro que as sanduicheiras devem dar quando querem morrer. Aquele leve curto-circuito com um estalido que é comum chamarmos de pipoco, sem fumaça, sem fedor de queimado. Só avisou que ia e se foi.

Não é que ela não possa ser consertada, mas fico aqui pensando se ela realmente quer isso. São mais de duas décadas trabalhando, talvez seja hora de ir. Ela me lembra um tempo bom e uma conexão que não gostaria de ter perdido, mas perdi. Porque? Nada é autoexplicativo, mas nem sempre é explicativo com explicação. É isso.

Emoções.

Tenho lido e ouvido coisas que tem me emocionado muito ultimamente. Tenho falado também. O choro tem sido constante mas quase nunca ele é algo que não deveria existir. Eu choro lendo uma matéria sobre trabalho escravizado nos dias atuais e choro na mesma medida ao ler a história de um rapaz que decidiu falar sobre as violências sexuais que sofreram na infância.

Choro também com uma senhora contando que adotou dois meninos que moravam na rua ainda em meados dos anos 80. Imagina. Eu choro mesmo, sem pudor. Chorei também quando uma estudante contou a história dela até entrar na universidade, que no caminho perdeu mãe e pai (com o pai dizendo "filha, não prestei atenção em você" para ela antes de falecer e indo levá-la ao ENEM mesmo ela com mais de 20 anos nos dias de prova).

Eu choro sem vergonha porque amo ser humana e me afetar, me comover, me mover ao encontro das minhas emoções. Eu quero todas elas, eu as abraço e me sinto confortável até mesmo dentro daquelas que são estranhas, porque eu estou aprendendo a amar até o que não conheço de mim para me preparar para o que vem. 

Eu agradeço por existir. 

sexta-feira, maio 15, 2026

segunda-feira, maio 11, 2026

domingo, maio 10, 2026

domingo, maio 03, 2026

Eleita.


 No Rio que a gente conhece, essa nem seria a pior história de governança.

Tocados pelo sol.


 

sexta-feira, maio 01, 2026

Um dia, T1.


 

O lenço de cetim da mamãe, de Chimamanda Ngozi Adichie (ou Nwa Grace-Jones).



Gostei do livro, leria para uma turma de crianças, leria para mim. E li. Podes escrever para crianças, levas jeito e eu gosto, Nwa. Eu sinto um prazer imenso de poder ler todos os livros de uma pessoa e com essa moça não é diferente. Posso falar que li todos os livros dela (estou lendo o último, ops), posso falar do que gosto e do que não gosto de tudo que fez e essa sensação é gostosa demais. Eu gosto. Eu gosto. Obrigada por escrever. 

Chimamanda Adichie

 

Histórias da Preta, Heloísa Pires Lima.

 

Li esse livro faz tempo, muito tempo. Uns dez anos, talvez. Alguém poderia sugerir a troca dessa capa? Seria ótimo, para começar... sobre o conteúdo, que dizer? Ainda bem que hoje temos muitas opções de lietratura infanto-juvenul negro brasileira, sim? Isso faz com que possamos escolher bem e analisar livros que estão no mercado há muitos anos (e que seguem nele, a despeito dos problemas que apresentam). 


Heloísa Pires Lima

domingo, abril 05, 2026

quarta-feira, março 11, 2026

terça-feira, março 10, 2026

Não é pelo sobrenome, a luta é por justiça.


Meu ódio de classe é (um pouco) aplacado pela emoção que sinto ao ouvir coisas assim. 

 

sábado, março 07, 2026

Banzeiro Okotô: uma viagem ao centro do mundo Amazônia, Eliane Brum.

 


Duas pessoas me recomendaram esse livro em 2023. Comprei em 2025 e terminei de ler agora, com os olhos marejados. Eliane consegue me convencer de que é possível vivermos juntes, ainda que tão diferentes e tão esmagades que estamos pelo racismo, machismo, facismo, especismo. Ela, que assumidamente diz que ser uma mulher branca no Brasil é existir violentamente, colabora muito mais com a luta de combate ao racismo do que muita gente que vive vomitando antirracismo por aí.

Chorei de emoção em muitos momentos do livro, mas me ver em lágrimas com a história de Alice, uma tartaruga que luta para sobreviver numa Amazônia que está sendo, pouco a pouco (ou muito a muito) destruída, me fez compreender que aquela não era a história de Alice, mas de todas nós. 

Lindo livro. Recomendo livro. Livro recomendo.  

Eliane Brum e Lilo Clareto (fotógrafo)

As aventuras de um paraíba.


 

A negociação.


 

quinta-feira, março 05, 2026

sábado, fevereiro 28, 2026

sexta-feira, fevereiro 27, 2026