Você que me lê, me ajuda a nascer.

domingo, julho 12, 2026

Caixa de lápis de cor e hidrocor.

Eu demorei para entender como aquele momento de dividir o lápis de cor e o hidrocor na escola pode se tornar numa das primeiras aulas sobre socialismo, relações humanas e política. Na escola em que eu estudava,  a hora de desenhar e pintar eram os momentos em que você precisava negociar, aprender a dividir e esperar, ou seja, tudo que você mais precisa saber quando cresce. 

Lembro que a gente começava a pintar, mirava num outro lápis e ia dizendo "quero a cor xis", porque se caso alguém a pegasse enquanto a gente pintava com a primeira cor, já ficava sabendo quem estávamos na fila. Tinha também quem deveria apontar o lápis - que invariavelmente aproveitava para conversar com outra pessoa que também estava apontando -, algo que pela ética do uso em comum deveria ser sempre depois que a ponta do lápis quebrava, ele nunca deveria ser devolvido à caixa sem ponta.

Os recipientes que abrigavam os lápis tinham decorações diversas e dependia do humor e do nível de cansaço da professora com o ofício. Elas poderiam estar gastas - anos anteriores - ou novas, poderiam ser em latas ou caixas. Lembro especialmente de uma em algum dos anos que tinham desenhos da gente feitos no ano anterior (sim, a professora pediu nossos desenhos para a nossa antiga professora). Até hoje me pergunto se só eu achei um desenho meu ou mais gente também achou, eu não lembro. 

Esses momentos de compartilhamento eram embotados pela ideia de que todo mundo ganharia uma caixa no começo do ano. A ideia de ter uma caixa de lápis de cor e uma de hidrocor só para a gente parecia muito sedutora - assim como tudo que o capitalismo promete - mas o encanto acabava quando a maioria das professoras, para não estimular o individualismo, colocava todos os lápis de cor e hidrocor juntos na mesma caixa, a despeito da cara feia das famílias. Ah, os anos 90 e nossa vontade de construir um projeto de nação democrático! Para onde foi esse desejo?

Quando me tornei professora, segui os passos das minhas professoras e continuei juntando os lápis de cor e hidrocor em recipientes todo começo de ano. Em alguns momentos, a gente usava aqueles pedacinhos de lápis e giz de cera (giz era algo que não era tão comum na minha época nas escolas que estudei) alguns hidrocores que ainda funcionavam dos anos anteriores, esperando dias melhores (famílias que enviavam materiais, compra pela secretaria ou verba da Associação de Pais e Mestres). Comecei a ver ainda mais esse momento como um espaço favorável à socialização das crianças e o estímulo ao compartilhamento, além da arte da negociação que está intrínseca em toda relação social.

Hoje, em casa, ainda tenho um recipiente com lápis, giz e hidrocor, todos juntos, misturados, como aprendi e como acredito que tem que ser. Deve ser por isso que tenho tanto ódio de classe e do discreto charme da burguesia.

Nenhum comentário: