Você que me lê, me ajuda a nascer.

quinta-feira, abril 23, 2009

Congada.

O rei tem que ser honesto pra fazer a sua lei à sua lei eu me presto mas se ele é honesto, eu não sei Congada, de Clara Nunes. Troque rei por qualquer outra coisa que você conhece, dá no mesmo. Universidades, escolas, hospitais, presidentes, chefes... a la carte.

segunda-feira, abril 20, 2009

O corpo.

De tanto ler Foucault fico maluca. Mas só uma certeza eu tenho: só o corpo é real. E de mais a mais, eu ouvi esse elogio hoje: você é a única mulher que dosa muito bem entre o que quer as mulheres de hoje e o que queriam as mulheres da década de cinquenta Não vou explicar, pensem o que quiserem.

Irmão de cor.

Adoro essa música sim, sou negra de cor minha irmã, de minha cor o que te peço, é luta sim, luta mais que a luta está no fim cada negra que for mais uma negra virá para lutar, com sangue ou não com a canção, também se luta irmão Tributo a Martin Luther King, Simonal.

quinta-feira, abril 16, 2009

Aconteceu (também) comigo.

Estava eu ali, entre as fileiras de livros da biblioteca, correndo feito louca e com um papel na mão cheio de letras e números, procurando livros no meu curto espaço de tempo, passo por um moço, olho pra ele, ele me olha. Sigo direto, esbaforida. Vou para outra fileira. Ele vem até mim e pergunta, sem saber, sabendo, querendo saber você não trabalha aqui? Digo, eu estudo aqui, e emendo, por quê, mas ele vai embora, meio sem jeito. Todas as minhas amigas já tinham me contado isso, mas quando a gente passa a gente fica passada. Bem-vinda ao clube, elas dirão.

quarta-feira, abril 15, 2009

Espera.

Era sempre assim. Toda vez, mesma irritação. Ele me deixava plantada esperando, esperando por ele, sempre ele, nos mesmos lugares de sempre, eu praguejando, xingando a mãe e todas as gerações futuras, mas ele não aparecia. Não aparecia por que não ia aparecer nunca, depois me ligava, as desculpas eram sempre convincentes, era trabalho, estudo, amigo antigo, festa de família, doença de parente longe, era desculpa que dava pra desculpar, não era mentira, eu acreditava, e esperava. De novo, no mesmo lugar, mesmo ponto de ônibus, cinema, porta de bar. Esperava por que achava que era missão esperar, acaso namorar também não era isso, esperar? Certa vez insinuou por telefone que eu estaria apaixonada, me irritei, desliguei o telefone na cara, esperei me ligar. Não ligou. Liguei, pra dizer que não o esperaria nunca mais. Espero aqui dentro, até o dia em que ele me ligue de novo, para esperá-lo em algum lugar. Qualquer lugar.

E se?

E se os universais não existissem? E se o amor não existisse? A loucura? O ódio? O que sobraria?

segunda-feira, abril 13, 2009

Ói o trem.

O trem chegou e estão construindo parques, limpando as ruas, arrumando a paisagem. Engraçado. Só melhoram as coisas quando chegam as máquinas, mas aqui sempre teve gente e gente não precisa de parques, minha gente? Coisa mais estranha, o progresso que traz o verde é o que mata o verde, círculo vicioso da morte. Enganação pura. Quem vai ficar, quem vai subir ou parem o mundo que eu quero descer?

As várias versões do amor.

Deveria enfiar aqui uma poesia do Drummond, mas não vou não. Vou escrever a frase que eu disse ontem pra ele: euteamo é onde começa o que eu sinto por você

quarta-feira, abril 01, 2009

A vida ao vivo.

A vida é aqui e agora. Então eu não deveria estar aqui escrevendo, deveria estar pendurada no cangote dele, pedindo mais um beijinho, só mais um, mas agora ele está ali, é meia-noite e cozinha pra mim, fico de longe olhando pra ele cortando cebola, aproveito e escrevo - a vida ao vivo é cheia de interrupções, com direito a beijinhos no pé da escada, a escrita não me dá o direito de dizer ops assim, vocês não entenderiam -, vou lá e volto, olho de novo, ele existe e, melhor ainda, eu também existo pra ele, então acabou o post por que agora é hora de mais beijinhos nos outros cômodos da casa.

sexta-feira, março 27, 2009

Tem homem que pensa que só por que escreve coisas como essa aqui fiquei pensando em você no fim de semana... Confesso que fiquei deliciosamente nervoso ao segurar a sua mão, sentir o seu corpo mais próximo do meu acha que vai fazer a gente suspirar. Pior não é nada. Pior é que eles têm razão.

terça-feira, março 24, 2009

Mais um.

As minhas amigas dizem, torcem o nariz, mais um, mais um, fico triste, elas não me entendem, eu sei que eu só quero é ser feliz, e demora às vezes, às vezes não, mas como saber, tu tem que ficar pronta, sempre a postos com o coração aberto e coração aberto sabe como é, passa passa e ele olha, suspira, basta dar um sorrisinho e ele se encanta logo.
Então não é mais um, é sempre o mesmo, por que sou eu, a mesma de sempre, sempre apaixonada. O moço é só mais um moço, só mais um detalhe, ops, tropeção da vida. Vai ser sempre assim, querendo ou não, sempre apaixonada. 

domingo, março 22, 2009

Zainab.

Ele consegue falar coisas que em outras bocas soariam sem nenhuma graça, consegue falar coisas bonitas sem parecer mais um canalha. Ele consegue me fazer sorrir enquanto eu falo por que lá do outro lado, ele me espera doido de vontade de falar com um brilho no olho igual o de criança pequena - ele não sabe, mas eu adoro isso, e prolongo a frase só pra que o olho dele continue a brilhar, pra que eu continue vendo a criança que ele é dançando, sorrindo, brilhando. 
Só posso dizer da mão, dos sentidos, dos beijos - bochechas envergonhadas sempre pedem um beijo mais à boca -, dos olhos, bocas e sorrisos. 
Pessoas que não querem me seduzir me seduzem mais do que pessoas que saem de casa decretadas a me fazerem apaixonar - e eu não sei por que diabos eu tinha a impressão que ele sabia isso de mim, o tempo todo. Tinha a impressão de que por dentro ele sorria ao perceber meus olhares e minha mão que descansava ali perto da dele, esperando ser roubada, carinhada, cafuné. 
Olho pra ele, lembro dele e penso que sei o que vai acontecer. Mas finjo que não. Finjo que não sei que gosto do modo como me ouve, me olha, me encabula. Finjo que não quero de novo sua companhia, pra fazer nada, botar a mão no queixo, encostar cotovelo na mesa de bar e olhar a rua.
Eu só queria que ele lesse isso aqui e abrisse um sorriso de criança, daquele que só ele sabe sorrir, pra mim, pra mim. 

terça-feira, março 17, 2009

She wants talk to me.

Se você estivesse ouvindo Billie Holiday, I am Blue, numa vitrola velha trocada por uma geladeira mais velha ainda e soubesse que ela quer falar com você, ela, só ela, também sorriria feliz.

Se eu te dissesse que está chovendo, e o barulhinho bom da agulha raspando no vinil acontece entre um pingo e outro dessa chuva, você entenderia o que é felicidade, além de todas aquelas outras coisas que eu digo aqui, fazem quatro anos.

I do, ou melhor, Oui.

domingo, março 15, 2009

Menu.

Descobri ontem onde se esconde a sedução da língua francesa. No menu. 
É que você tem falar moêniu, mas sem falar o i. É boca de u com som de i.
Deu pra entender?
De agora em diante, vou pedir sempre, me vê o cardápio.
Quando mais eu aprendo, mas eu me estrepo. Quando mais eu aprendo a falar, mais eu entendo por que um grande amigo meu - saudade - fica quase o tempo todo em silêncio.

sexta-feira, março 13, 2009

Uma pena.

A criança me olha e fala eu já fui na natureza Fico sem jeito de contar pra ela que antes, um pouquinho antes dela nascer e dos seus cinco anos, o mundo não era coisa ao contrário e a gente diria eu já fui na cidade Penso que se "lá na natureza" os bichos assistem tv', o noticiário diria um mar de cimento invadiu o que antes era uma bela floresta Ao invés de ouvir o que a gente ouve, coisas como novo prédio de empresa tal, conforto e parque e lazer Pena. ___________________________________________________________________ A menina me cutuca e diz tou com saudade da minha mãe E eu que não sei de nada, respondo calma, meu amor, daqui a algumas horinhas tu volta pra casa E ela replica, depois de um suspiro e com cara de não-você-não-entendeu não, professora, não adianta ir pra casa, ela não está em casa quando eu chego, eu só vejo ela fim de semana, quando ela não vai trabalhar, ela chega muito tarde e eu tou dormindo e de manhã sai muito cedo e eu tou dormindo Eu sempre arrumo alguma coisa pra fazer quando respondem uma coisa dessa. Mas a menina cutuca de novo e diz queria que você fosse minha mãe, pelo menos eu te vejo todo dia de tarde (coceira na garganta)

terça-feira, março 10, 2009

Instrumentos.

Andando pela rua, vi um homem negro tentando usar o pedaço da porta de uma geladeira velha pra fazer um tapume de onde fica o relógio da luz da casa dele. Acredito que vá funcionar. Fiquei matutando comigo o que será que a gente conseguiria produzir além do que a gente já produz se não nos fosse o tempo inteiro negado o acesso aos lugares, coisas e pessoas. Se pudéssemos sempre fabricar nossos próprios instrumentos, tintas e tudo o mais. Conseguir tudo na marra tem um gosto diferente, mas cansa se tiver que ser toda vez assim. Aí eu lembro da frase de um estudante negro que tinha acabado de ser admitido na Universidade do Alabama, país que foi um dos últimos a acabar com a segregação racial no EUA: dê-me a entrada na Universidade e eu me torno presidente dos EUA Obama neles, mais uma vez.

Estação Cidade Universitária.

É quando eu ponho o pé pra fora, longe do risco de cair em baixo dos trilhos, que me sinto, de novo, uma mulher inteligente, bonita, que tem muita saudade da mãe e que queria, um dia, dar tchauzinho pra ela da estação.
Daquela estação.

domingo, março 08, 2009

Cotidiano.

você diz que elas são comuns, mas elas são bonitas, você diz que eu sou bonita mas eu sou igual à elas
(...) é por que eu te amo, né?
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A moça-senhora depois da feira me viu no ponto de ônibus e parou, queria conversar. Me contou a vida inteira. Depois disse
tenho que ir lá na USP, arrumar meus dentes
E eu, inocente
ah, a senhora sabe, conhece o atendimento lá? é grátis
E ela
ah, minha filha, conheço, é ruim demais, caiu tudo, olha aqui
Sorriso sem graça. Meu, a senhora não quer sorrir. Chegou a perua, ela me deu tchau, me disse que era encostada mas fazia bico na feira, me pediu segredo que a Previdência não podia saber de nada.
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E eu adoro um amigo que diz
tudo isso aí é muito recente, coisa de cinco mil anos. nossa cultura é mais que milenar, esses problemas que inventaram nem são nossos
Adoro não. Eu tou apaixonada por ele, mas ele acho que não acredita. Disse que eu sou bonita, inteligente. Sou mulher, enfim. 
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Tanta coisa pra escrever, eu passo, esqueço. Vivo, sinto, esqueço. Só de escrever. Tá tudo aqui, na cachola do coração. Por que compreender é só mais um modo de sentir o mundo. 
Alô pandeiro, alô viola. 

quinta-feira, março 05, 2009

Bagagem.

Depois que li Adélia Prado não quis mais escrever. Ela disse que tudo que escreve é inventado de bíblias e guimarães. Eu digo que depois que a li não quero mais escrever nada. Só fazer as coisas para gastar alegria. Só para ouvir meu nome dito numa boca feita pra mim. Ela que diz assim, ainda mistura terra, chão e mato às dores, coisa que eu agora selva de pedra vou perdendo um pouquinho todo dia. Tem gente que vai embora e nem avisa, outras avisam mas mesmo assim a gente não se acostuma, eu não queria que ninguém fosse embora de vez, ou é só a gente que não sabe como fazer quando as pessoas se vão, a gente tem que aprender com quem vai, mas como, se ela vai, se ele vai, es-vai.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Foi bem na hora que uma pérola saiu da ostra pra ver o mar que a cataram ... Morreu feliz então olhou o monte de azul fechou os olhos
... uma mulher linda deitada ao meu lado... (meunomemeunomemeunome) loucura, loucura Respirei fundo, mas não consegui segurar e a lágrima caiu. Deixei que caísse, uma dúzia delas. Molhei a cama dele, a cama por onde passeei, deitei, virei, dormi, sorri. Não amei, porém. Não entendi, porém. Continuo aqui, achando que é tudo um grande jogo e que vou ganhar no final.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Felicidade sim.

Perguntei pra um amigo tu não fica triste nunca? E ele fico... mas passa logo ______________________________________________________________________ Verônica, o filme. Assistam se quiserem. Eu parei de comentar filme há algum tempo, porque não sou crítica de cinema e me irrito quando alguém que não entende nada fica dando pitaco. Mas esse filme sem propósito é sobre uma professora de escola pública infeliz com sua carreira que fica incumbida de levar para casa um de seus alunos que a mãe não foi buscar na escola. O resto você já deve ter visto por aí. Não quero falar muito, mas vou falar só mais isso aqui. O filme tem problemas no roteiro, nas continuações, nas atuações (gosto da Beltrão, mas nesse filme...). O interessante é que em meio a tudo isso, o ator Matheus de Sá manda muito bem e pronto. Pelo menos isso. Ah, e além de tudo isso, o filme é recheado de estereótipos bizarros. Bizarros mesmo. Eu sou professora, e posso falar.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Fazendo amanhecer.

Eu gosto de Manuel de Barros por que ele diz Sou leso em tratagens com máquina. Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis Em toda a minha vida só engenhei 3 máquinas Como sejam: Uma pequena manivela para pegar no sono Um fazedor de amanhecer para usamentos de poetas E um platinado de mandioca para o fordeco de meu irmão. Cheguei a ganhar um prêmio das indústrias automobilísticas pelo Platinado de Mandioca. Fui aclamado de idiota pela maioria das autoridades na entrega do prêmio. Pelo que fiquei um tanto soberbo. E a glória entronizou-se para sempre em minha existência. O fazedor de amanhecer, do livro Fazedores de Amanhecer, Ed. Salamandra. Um monte de autores. Amigo meu que diz você passa anos em São Paulo sem botar o pé na terra E depois ele me diz vem cá, senta aqui, ultimamente a gente não para mais pra conversar Parei, sentei, conversei.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Invisibilidade Pública.

Uma vez, quando reconheci na Lavagem do Bonfim um moço que tinha me vendido cremosinho um dia antes na frente da Feira de São Joaquim, minha amiga achou engraçado. oxi, foi você mesmo, moço Ele também lembrava de mim. Mais louco ainda que quando com a mesma amiga um ano depois na praia de Piatã reconheci o vendedor ambulante que havia vendido a ela uma canga. Ele também lembrou de mim, minutos depois. Leiam essa matéria aqui http://http//carosamigos.terra.com.br/da_revista/edicoes/ed80/sofia_amaral.asp que eu já conheço faz tempo, você fica agoniada e triste. Muito triste. Fico mais triste ainda quando as pessoas dizem em São Paulo ninguém dá bom dia pra ninguém E eu pergunto na lata como é que tu sabe, tu dá? Às vezes é só uma coisa que você precisa começar a fazer. Dê bom dia, que as pessoas respondem.

Minha Casa.

Atentem para a questão, não errem um milímetro com as crianças. Eu, na aula, digo escrevam um texto E botei o nome do texto, Minha Casa. Levanta um mocinho, oclinhos azul, compenetrado professora, não posso fazer Eu, cara de quase-brava: c-como assim? Ele moro de aluguel, professora.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Abusou.

Tira partido, abusa. A gente vai e vem, revém. Vira por que torna e volta. ... Mas uma hora nem é coração que cansa, é tu que pensa que talvez seja o teu amor uma coisa tão inexplicável que quer conversa sempre e direto às sete da noite antes do café, um elogio antes de dormir e não nada. Não mais nada.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Morte.

Primeiro dia de aula. Crianças de cinco anos, rolou um papo sobre a morte. Mandei e pra onde a gente vai quando a gente morre? Mocinho inteligente responde o coração vai pra deus e o corpo vira lama Adorei a idéia. E ainda mais que ele só tem cinco anos e a vida toda pela frente.

Escaninhos.

As memórias percorrem caminhos estranhos para nos fazer lembrar de coisas tão boas que nunca deveriam fazer voltas para aparecer de novo. Andando com mainha pela Baixa dos Sapateiros, Barroquinha, de mãos dadas ela ia me contando de sua infância e adolescência, como tinha medo daqueles becos que desembocavam no Pelourinho, tão estreitos e misteriosos, como desejava os vestidos nas lojas e coisa e tal. Fomos subindo em direção à Praça Castro Alves e ela de repente lembrou lembra quando tu era pequena que se perdia sempre que a gente saía? E aí veio tudo de uma vez só, eu me perdia na feira, me perdia no supermercado, na loja, no shopping, na rua, lembro bem da minha cara de criança olhando o mundo - lembro agora de Bia que pede pra Zandra quando acorda elizanda, me leva na laje, quero ver o mundo - eu lembro bem que eu era pequenininha e olhava pra cima, me concentrava no que estava olhando e quando eu olhava pro lado, pra frente, nada de mainha, a gente se procurando entre as pessoas e coisas, a gente sempre se encontrava, de novo os mesmos conselhos, mas eu sempre achava que não tinha nada demais parar para olhar direito as coisas, que tinha alguma coisa errada na pressa em fazer, olha eu ali me perdendo de novo e daquela vez mainha tinha ficado mesmo preocupada, botou no som do supermercado o meu nome, bem na hora que me encontrou falaram meu nome, eu achei que era magia de mãe, fiquei encantada e orgulhosa de sair do supermercado de mão dada com alguém que tinha super poderes, aha. Fico pensando se é por isso que eu gosto de me perder por aqui, se é por todas essas histórias que eu escolhi ficar longe às vezes, olhando com cara de criança pro mundo.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Adoro (poesia).

Adoro pau mole. Assim mesmo. Não bebo mate não gosto de água de coco não ando de bicicleta não vi ET e a-d-o-r-o pau mole. Adoro pau mole pelo que ele expõe de vulnerável e pelo que encerra de possibilidade. Adoro pau mole porque tocar um pressupõe a existência de uma intimidade e uma liberdade que eu prezo e quero, sempre. Porque ele é ícone do pós-sexo (que é intrínseca e automaticamente - ainda que talvez um pouco antecipadamente) sempre um pré-sexo também. Um pau mole é uma promessa de felicidade sussurrada baixinho ao pé do ouvido. É dentro dele, em toda a sua moleza sacudinte de massa de modelar, que mora o pau duro e firme com que meu homem me come. Maria Rezende

terça-feira, fevereiro 10, 2009

"Baianinha, é?"

Domingo, esperando vôo com mainha em Congonhas, nada pra ler, lembro que na bolsa havia parte do jornal da Folha, Caderno Ilustrada. Surrupiei de um amigo para anotar as sessões de cinema, mas ali, sem nada para ler, comecei a folhear as poucas páginas. Me deparo com a "coluna social" de Mônica Bergamo, coisa mais provinciana que coluna social em jornal de cidade com mais de dez milhões de habitantes não tem, vamos lá. Leio que a entrevista são com namoradas de banqueiros, perguntas sobre como elas estão enfrentando o namoro nessa época de crise. Conversa vai, conversa vem, Monica dispara uma pergunta sobre escolha de namorada, essas coisas assim. No que dispara uma tal de Mariana rola isso, sim. É até feio falar, mas a ex-namorada do Marcelo era uma "baianinha". Tenho certeza de que o fato de eu ter morado no mundo inteiro, falar línguas, conhecer pessoas o levou a pensar: "Vou ficar com esse fim de mundo ["a baianinha"] ou fazer essa troca?". E me escolheu Li umas duas vezes, só pra me acostumar com a idéia de que o preconceito, num dos jornais mais lidos do País, é algo comum. Desde quando ter nascido nesse ou naquele outro lugar diz se somos fim ou começo de mundo? Não entendi nada. Mas pelo que entendo de leis, isso dá um looongo processo. E é o que eu vou fazer.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Mighian Danae.

http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=16904&mdl=49

 Acessem o site acima, vejam a foto. O jornal carlista Correio da Bahia, em Salvador, tem um espaço dedicado às fotos enviadas por leitores e leitoras todos os dias. Estava em Salvador e cliquei a 2ª Marcha contra Intolerância Religiosa que acontece em Itapoã, dia 21 de janeiro. Fiquei feliz quando abri o jornal e vi estampada a foto que tirei, mas não gostei nem um pouco da legenda que inventaram: baianas em caminhada a favor da Lagoa do Abaeté Fiquei pensando que talvez a foto não fosse tão boa e sugerisse isso, mas de qualquer modo, eu havia mandado a legenda. As referidas "baianas" contidas na legenda não estavam fantasiadas: são, respeitadamente, filhas e mães de santo de terreiros de candomblé em Salvador e cidades vizinhas. Por que será que o jornal, que não cobriu a Marcha, fez questão de inventar uma notícia? Mandei um e-mail reclamando o erro, e no site aparece uma outra legenda, misturando verdade e mentira. O moço que segura a placa SOS ABAETÉ segura por que quer, por que gosta, mas não era o mote central da Marcha. Alhos com bugalhos. Aqui pra nós, nem gostei tanto da foto. Gosto mais da foto de Mãe Jaciara que postei lá embaixo. Mas agora me retei.

Nada a declarar.

Estava ali, no salão, fazendo a unha. Isso quase nunca nunca acontece. Entrou uma moça, paulistana da gema. Mas isso eu tava lá em Salvador, ela puxou assunto com mainha e acabou descobrindo que eu morava em São Paulo. Puxou papo comigo e perguntou o que eu achava de São Paulo, como estavam as coisas por aqui. Falei que estavam legais, mas que gostava muito de Salvador, que queria voltar. Ela começou a dizer que não gostava de nada dali, que morava há sete anos mas achava tudo uma grande porcaria, eu fiquei sem jeito e disse que gostava muito de Salvador. Mainha fica logo zangada e saiu do salão para não brigar com a moça, eu saí de lá e falei com mainha que não era pra zangar, a moça só não sabia dizer as coisas direito.
Sabe? A grande maioria das guerras devem ter começado assim. Não num salão de beleza, mas sim por que alguém ficou dizendo que isso ou aquilo era mais bonito ou mais gostoso, aí alguém mais esquentado foi lá e pimba, tacou um míssel e matou um montão de gente. Fiquei pensando nisso e fiquei pensando que não dá mais pra ficar explorando essa idéia de São Paulo não presta, odeio esse lugar. E que Salvador é cidade idílica, que lugar bom de morar.
A verdade é que São Paulo é metrópole, e como toda metrópole, tem suas coisas. As pessoas devem saber disso e devem saber que não é fácil ser agradável e gentil numa cidade com dez milhões de habitantes. E as pessoas correm por que precisam correr e depois querem até parar de correr mas tá todo mundo correndo e o tempo, ah, o tempo, ele é outro.

Sorria, meu bem.

Direto da recepção da Selva de Pedra, eu parada esperando o ônibus, recém chegada da viagem de férias, São Paulo, dia três de fevereiro. No ponto de ônibus mamãe e filho esperavam também a condução. Olhei pra ele, ele me olhou, esboçou sorriso, talvez fossem as minhas tranças, minhas roupas coloridas, vai saber. Olhei pra ele, sorri de volta, disse oi, neném A mãe sorriu, mas um sorriso desconfiado surpreso e sem jeito. Disparou você conhece ele? Gaguejei, baixei os olhos.

sábado, janeiro 31, 2009

1989.

Caçando o que fazer, fui mexer nos diários e encontrei um de quando eu tinha nove anos, 1989. Num dia lá de outubro escrevi hoje foi dia de eleição. mainha e painho votaram no Lula, mas parece que ele não vai ganhar. mas quem disse que a gente tem que votar em quem ganha? tem que votar em que a gente acredita. collor tem o apoio da rede globo, mas de mil funcionários trabalhando para a campanha dele. o nome do dono da globo é roberto marinho. Não acredita? Vem aqui em casa que te mostro o diário.

Pra sempre.

Vou embora, mas nunca nem fui. Fui embora, mas nunca nem vou. Nunca fui muito com a cara de Daniela Mercury, vai saber por quê. Acho chata, metida a gás com água, como diz mainha (não me peça pra explicar nada). Mas hoje ela deu um depoimento bem legal na tv' aqui da Bahia, uma pena que não passou pra todo mundo do Brasil. Perguntada sobre religião, ela disse eu não tenho nenhuma religião assim, mas vou no Gantois e gosto muito, quero ter mais tempo para me dedicar. é importante que se diga, o candomblé é um lugar maravilhoso, se diz por aí que temos 365 igrejas na Bahia, mas as pessoas esquecem de dizer que temos mais de 3.000 terreiros de candomblé, isso não é pouca coisa não. tudo é candomblé, todo aquele batuque foi ressignificado e transformado nesses sons que conhecemos agora, o samba, o pagode, esses blocos afro... o que é tudo isso se não candomblé? Gostei dela, que pra arrematar falou não deve haver diferença entre brancos e negros, a questão de não haver ainda oportunidade igual para negros querem justificar por conta da escravização, mas isso não pode ser usado como desculpa para que até hoje continuemos mantendo o fosso racial Mais ou menos isso. Pronto. Continuo não gostando tanto dela, continuo sem saber por quê, mas agora eu a respeito.

terça-feira, janeiro 27, 2009

Buá.

Por onde começo? Dizendo que sim, eu sou uma moça difícil. Que facilito tudo, dez prestações e depois eu vazo, vou embora, nem olho pra trás. Ouvi isso de um amigo, fiz cara de espanto, mas aqui dentro eu já sabia. Agora tem mais esse. E aquele, e aquele de sempre. Não sei direito o que fazer, as mãos têm cinco dedos e eu queria parar de contar as vezes em que fugi das coisas. Os dedos das mãos acabam, eu conto no pé, eu não paro de contar, invento classificações absurdas e não paro de contar. who cares? Você e eles e elas poderiam dizer, mas tem gente que liga. Eu ligo.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

Mãe Jaciara.

Vendo Mãe Jaciara falar, eu me arrepio toda e me orgulho de ser mulher, nascida e criada na Bahia, em tantos lugares daqui. Mulher negra que sabe que é forte é muito mais forte que mulher negra. Sai de baixo. Ou venha pra cima. Mas só se aguenta. Dei um abraço nela, ela me deu um abraço, me beijou. Dos dois lados.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Tango crioulo.

Assista Café dos Maestros e aprenda: um dos tangos que a tal Virgínia Luque canta se chama Orgulho Crioulo. E em muitos deles a palavra crioulo aparece como adjetivo de moços e moças apaixonadas, ao lado de morena, moreno. Tu vai na Argentina e as pessoas querem fazer desaparecer o elo que existe entre a formação do povo argentino e a África. Uma pena. Aí depois vem uma cantora uruguaia, Lágrima Rios e diz o tango tem muito a ver com o candombe É ela mesma quem diz que seu marido a chama de negra, quando quer dizer meu bem. Aprenda a assistir filme, mesmo quando ele não é feito para nós.

Biquíni de bolinha.

terça-feira, janeiro 20, 2009

Coragem.

É preciso ter coragem Para ter na pele a cor da noite Cabaré da Raça, dia 16 de janeiro. Eu chorei.

sábado, janeiro 17, 2009

Sinuquerìa.

São Tomé de Paripe.

Eu pivetinha, tu imagina, ia na praia de São Tomé de Paripe e ficava lá, de boresta. A água batendo no pescoço, eu pequena, a praia parecia o mundo inteiro. Voltei lá e a água não me passa das coxas. Mas o sabor do mar, catar conchinha atrás das pegadas de mainha - a senhora não viu essa bitelona aqui? - continua lá, e eu senti, continua aqui. No jeito de andar, no rebolado pra escapar das dores de partida, nas conversas e no sol que ainda brilha - lá em cima, e no meu coração.

Foto de Heloíse Domingues

domingo, janeiro 11, 2009

Dia de bode.

Bodeando na frente da internet. Não quero escrever nada. Queria escrever trechos do livro sobre a vida de Miguel Arcanjo, livro que estou lendo, mas não quero. Procure e leia. E li todos os quadrinhos da Marjane Satrapi e chorei mesmo, por que eu choro com essas coisas. Mas não choro por amor faz tempo. Uns 55 dias, para ser sempre exata. A vida é feita de escolhas. Tem uma hora que eu penso que eu vou escolher pouco amor e me contentar pra sempre, sem reclamar. Tenho medo dessa hora e penso que nunca vou escolher pouco amor e vou morrer sozinha. Tenho medo dessa hora também.

sábado, janeiro 03, 2009

Cena.

Quando uma cena de cinema acontece na sua frente e com você, tu lembra na horinha ou só depois de muito tempo? Pense nisso.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Atotô.

Dá licença 2009.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Nós.

só a lembrança do seu amor me sustentaria uns cem anos Essa foi a dedicatória que escrevi faz uns anos. Me lembraram ontem. Não deixou de ser verdade. O amor dele foi bom, a lembrança me faz bem. Até mesmo terminar do jeito que terminou, cicatrizes mil, foi tudo muito bom. Hoje eu acho assim. E é ele quem me diz hoje talvez você espere um amor tão grande que intimide quem só quer ver se aprende agostar a você Talvez seja isso mesmo. Hoje, eu acho assim.

Cigano.

Rui virou pra mim e disse, lendo minha mão você não é feia, só não tem sorte na vida Isso depois dele ter dito que alguém famoso está apaixonado por mim, mas que eu tinha que descobrir quem era. Que o tal moço toca numa banda, que eu tinha que ir num show dele e que ele ia jogar um lenço branco e eu ia pegar. Rui é morador de rua aqui em Itapoan. Sabe de coisa que até eu duvido. Legal, né? Mas Rui tá morrendo. Com uma ferida na perna, morrendo assim como João, outro morador de rua que conheci ano passado mas que agora não está mais aqui para contar história nenhuma. A gente foi ver o que podia fazer, mas o hospital disse que primeiro ele tinha que tirar os documentos. Ele se retou e voltou pra rua. Deixa vir aquelas pessoas à noite, toma sopa e refaz os curativos. Está morrendo. Lê minha mão e suspira, pede um copo de água. A manhã vai lenta embora. Fico ali na rua, olhando o tempo passar, conversando com todo mundo que passa. Aprendendo tanto da vida ali, só olhando o tempo passar.

quarta-feira, dezembro 24, 2008

Alguém roubou meus livros.

... e eu deveria estar feliz, sim? Alguém roubando livros, alguém vai ler os livros, vai passar pra alguém. Voltando do RJ, empresa WEBJET, tive a mala violada e os livros roubados. Um sobre África, um era o depoimento do Zuenir Ventura sobre os tempos da ditadura. Deixa pra lá.

Já cheguei em Salvador, tudo vai dar certo.

Passo horas sentada, sem fazer nada, só olhando o barulho que a vida faz.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Nada.

Aqui na minha casa não tem microondas. Não tem máquina de lavar. Não tem computador. Mas tem o amor de mainha esquentando comida no fogão e me ensinando que homem não pode mandar na gente hora nenhuma da vida.

domingo, dezembro 21, 2008

Em Copa.

Cabana. Eu gosto de gostar, gostanu, a la solano. É verdade sim, o Rio de Janeiro continua lindo. Continua sendo. Sendo. Jorge Ben não é besta nem nada. Salve, salve. E não só em Copa, gosto de tudo.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Michele Obama e sua chegada à Casa "Branca" - homens brancos (e negros?), tremei!

Roubei essa foto de um blog legal pra caramba: http://www.webneguinha.blogspot.com/. Coisas da vida que só a internet faz, conheci a moça (não a Michele gente!) do blog assim, por aí. Agora nos falamos vez por outra. Até que queria falar mais e mais com ela, talvez com mais tempo eu consiga. Gostei da foto, Michele correndo, chegando na frente, na frente mesmo de Obama, e ainda mais de vestido lilás, a glória. Ela é primeira-dama pra presidente nenhum botar defeito. Agora até dá vontade de falar por aí que sou sulamericana. Ehe.

terça-feira, dezembro 16, 2008

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Ninar de cabelo.

professora, quando você vem com o cabelo assim, eu lembro de te fazer nina no cabelo diz uma criança, enfiando os dedos no alto da minha cabeça. ou então professora, eu disse pra minha mãe que você é africana

Birotes.

Já leram "As Tranças de Bintou"? Não? Deleitem-se.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Rio Tietê.

E eu mas quem é que suja o rio? A meninota nós, professora, nós Consciência ambiental. Gente adulta e emburrecida diz eles sujam, eles, sempre eles.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Outro lugar.

Já ouviram Viagem, de Vanessa da Mata? Ouçam, e lembrem de mim. Gosto da frase não quero merecer outro lugar Eu não quero merecer outro lugar, quando mainha me liga às sete da manhã num domingo, só pra me dizer oi e contar as novidades, as fofocas. Pra me dizer que vai largar o emprego, que não aguenta mais trabalhar. Eu apóio e falo que é isso mesmo. Como vai viver, perguntaria logo um paulistano, eu pararia e responderia, não sei, mas se tu mora a 400 m da praia e não consegue tomar sol toda semana, tá na hora de pedir as contas do emprego. Como me disse um aluno dia desses, quando eu fiz a chamada o Heitor não vem mais professora, ele foi demitido Ri sozinha e continuei a chamada, as crianças comentando que a transferência de Heitor é por que ele tinha sido demitido. Mas não quero merecer outro lugar também quando estou ali, meio do mato, o axé do mundo todo é meu, é nosso.

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Chororô.

Crianças, eu quero que vocês desenhem o momento mais legal, mais especial aqui na sala Me disseram foi no dia em que te conheci todos os dias são muito legais, não tem um dia só eu gostei no dia que você brigou comigo, você é muito engraçada Eu fico chateada com eles e elas, tanta conversa e eu cansada, mas não dá pra abrir um sorriso no meio desse dia cinza. Um sorriso não. Vários.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Segurando o tchan.

Olha o e-mail: De toda forma, aqui vai um "Para Casa" para você: Favor escrever, em ordem alfabética, uma relação de todos os pretendentes do último e deste ano, colocando na frente de cada nome uma qualificação e uma historinha correspondente (por ex. G*: baiano, usa óculos, que falou no carro assim assado..."). No caso dos estrangeiros, não esquecer da nacionalidade (italianos, moçambicanos, angolanos etc) e mencionar que estão fazendo no Brasil (curso, passeio, conhecer Migh Danae). Razão? Esse pobre interlocutor às vezes fica perdido com tantos nomes e pretendentes. Assim, a cada nova história, ele poderá consultar o glossário e até, daqui para frente, acrescentar por conta própria novos nomes. Se você quiser colocar estrelinhas de importância ou de impacto de chegada, fique a vontade. Adoro a franqueza de meus amigos.

sábado, novembro 29, 2008

Descobrindo Djanira.

Orixás, 1966
Descascando mandioca, 1965
Tá bom, tá bom. Não reclamem. Só conheci Djanira agora. Mas pra me redimir, me apaixonei. Tu tem que ver esses quadros de perto, sentir as cores. Djanira bota pra lá.
Lindezas.

Palavras.

A gente precisa da palavra como o corpo precisa do outro pra deitar e rolar. Precisa da palavra como a folha que quando cai do pé de laranjeira só quer mesmo é encontrar o chão, se abrigar juntinho de todas as outras folhas que caem. solitário é ser gente A gente precisa de palavra pra matar o sono, pra matar a sede de viver entre as gentes, precisa de palavra pra esconder coisas, pra revelar outras, para entender a vida e desentender a gente. Letra é treta, a pele da palavra. Allan Da Rosa.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Quero te ver, bonita.

Ele me diz, no seu português arrevesado, pelo celular preciso te ver, tou com saudade de ver mulher bonita, né? E eu ando ensaiando no passo, sambando de vestido amarelo emprestado no meio do frio, entre lotações apertadas e olhares em cima do decote azul com fundo branco. Sabe quando tu bebe? As pessoas ficam recortadas. E é por isso que às vezes tu não lembra do que fez, por que tu beijou a boca, a boca só, mais nada. Foi naquele flash que a boca merecia ser beijada e sua memória recortada que não sabe juntar pedaços de gente beija a boca, a boca, que depois te liga e te cobra um novo encontro. Vai entender a vida.

Quilombo Campinho da Independência, RJ.

Tinha Estevão, menino preto lindo de olhos-jabuticaba, uns 10 anos, mas ele era tão lindo que não consegui fotografar. Tinha tanta luz e vida que fiquei com medo do flash se apagar e bum o mundo ir junto por causa de tanta beleza que tinha seu sorriso, sua juventude, sua força pra tocar o tambor do jongo (saravá). Guardei em minha memória sua alegria doce de um fim de sábado à noite.

Festa Migh&Day.

2008 tá indo embora, vamos comemorar!
Para aquecer as férias que já estão quase chegando, vamos reunir as amizades e fazer uma grande festa!
Onde? Casa de Migh&Day – Rua Nitra, 64 Jardim Itatiaia, SP (chegar no Terminal Grajaú e subir a Rua Giovanni Bononcini até o cruzamento com a rua Prefeito Paulo Lauro. Entrar nesta rua e seguir direto, entrando na terceira rua à esquerda, que já é a rua Nitra. A nossa casa fica em cima de uma placa onde se lê BRASTEMP. Se nem assim você conseguir nos achar, ligue 83465695 (Migh) ou 85415337/67138260 (Day).
Que dia?
13 de dezembro, às 20:00;
O que vai ter pra comer?
Vai rolar um jantar típico com comida baiana e depois, um churrasco de leve, para manter a boca cheia durante toda a noite. Para isso, pedimos a contribuição de R$ 10,00 de cada convidado/a. Depósito: Agência – 0736
Conta Itaú – 71615-0
O que vai ter pra beber?
O que você trouxer, o que você quiser, o que você preferir.
Além da festa, da gente bonita e da música, vai rolar um amigo desapego, um jeito novo de trocar presentes no fim do ano. Não vamos explicar muito, só pedimos que quem quiser participar do tal amigo desapego, que traga um presente, um presente qualquer, mas escolhido com muito amor e carinho. Aguardem e confiem!
Então...
Jantar típico: 20:00;
Amigo Desapego: 21:00;
Churrasco: 22:00;

VEEEEEENHA!

Isso foi ontem. Hoje é ontem.

Indo para o trabalho, vendo uma criança que apoiava a cabeça no colo de sua mãe, meus olhos marejaram. Senti falta da minha, senti a força de um amor tão bonito que põe a cabeça no ombro e esquece do mundo, que não quer mais nada além de ser feliz ali, com a cabeça no ombro de mãe. Ombro de mãe é outra coisa, por mais que não se fale. Chorei então, e me permiti sentir, mais uma vez, saudade. Não sei mais como fazer com certas coisas, envelheço, alongo o corpo mas o coração não quer saber de mais sofrimento, então eu já disse que não quero mais sofrer por coisa pouca, coisa pouca eu vou ali e falo tudo, boto pra fora e em segundos já estou melhor por que bem mesmo só se as pessoas que amo entendessem que meu amor não precisa de nada, só precisa de amor. De amar. Não adianta ser Migh se tu não tiver jogo de cintura com as pilantragens da vida, com as pessoas que não sabem ser elas mesmas e se irritam com você sendo vinteequatro horas por dia, é quando você olha pro lado e vê que pessoas que estão no seu caminho e que tu dá a mão precisa também aprender a ser só e a parar de ter medo, ciúme e raiva que você entristece um pouco mais, mas, eu lembro de um moço que num abraço apertado me disse que dura eu não ia ficar por que eu tinha medo de ficar dura. Quis ele pra mim, quis roubar sua luz... não entendi. Deixei pra lá. Nos encontramos nos trens da vida. Tem dias que em São Paulo o único encontro que presencio são mesmo os dos trens. Dois trens se cruzando, você já viu? Encontro São Paulo: os vagões que não se olham, não se beijam, não se batem. Correndo, não se sabe quem corre mais, mas sempre é corrido. Vrrrrrum, e lá se foi mais um encontro dos trens. Ele lá, eu aqui dentro. Bem-vindo a São Paulo. Gente que vai e que vem, e gente que na verdade nunca foi, e talvez nunca tenha vindo. Estão aqui, estão-estão. Não sei dar um jeito nelas, por que também não se tem jeito a dar em tudo na vida. Tem coisas que tu empurra com a barriga, coração, cabeça. Finge que esqueceu, sorri, é mentira. Estou cheia de segredos, estou triste. Descobrindo coisas de mim mesma e de pessoas tão perto que não consigo escrever muita coisa, é tanta idéia na cachola que. Lendo Pedro Juan, leiam Animal Tropical, leiam qualquer coisa de Pedrito, ele é pervertido com classe, faz você entender por que pessoas como ele existem, ele se justifica em cada parágrafo; nesse livro, falando de felicidade e liberdade como caminhos, não como metas. Derrubei açúcar na cozinha, dizem que açúcar traz felicidade, derramar faz bem. Não sei. Não senti nada na hora. Se acontecer alguma coisa, eu escrevo aqui. Tanta gente, gente nenhuma. Todo mundo te fala, te elogia, te diz bonita, mas nada aqui dentro acontece. Seca? Dói. Arestas nem sempre são fáceis de aparar, como asas que crescem do dia pra noite, você tenta esconder, como flor no alto da cabeça que você tenta podar. Mas me disseram você é um encanto quero você com seus medos, mas não com talvez quer namorar comigo? E eu me pergunto: por que eu faço isso comigo? Sinto falta de mato, de terra, de barro, de pedra, pau, folha seca, pássaro. Sinto falta e não com hora marcada, quero nadar no riacho, como diz Brown, quero uma casa no campo, quero flor, quero brincar de pôr formiga pra brigar, quero prender aranha no vidro de maionese, marcar hora pra ver lagarta virar borboleta, quero caçar esperança, grilo. Quero natureza entrando e saindo pelos meus poros, quero vida. quero tudo isso mas não apenas num fim de semana e tchau, quero viver sem pressa, quero achar graça nas pessoas que correm quando saem do trem, quero estranhar as agressões diárias que as pessoas se permitem receber e fazer, quero olhar com alma de criança pras coisas, quero ficar só sem ter que dar satisfação de nada disso que escrevi aí em cima. Na lua cheia, abracei Abracei o mar

O melhor lugar do mundo é aqui, e agora.

Venha, chegue mais, chegue mais. Estamos cheios e cheias de amor pra dar, chegue mais. Me diga se tu não ficaria toda boba se trabalhasse numa sala de aula que tu ensaia a música de encerramento e as crianças se emocionam e choram. Reclamar da vida? Eu, hein!

terça-feira, novembro 25, 2008

Ele vai te dizer que não é arte, ele quem, eles, vão dizer que só eles sabem produzir e você tem que consumir, pra consumir a arte deles você tem estudar na escola deles e tem que pagar caro, depois tem os eventos e toda aquela pose, ele vai te dizer que você só entende de arte se suspirar meio tom acima do normal quando chega perto do quadro de fulano de tal, ele vai te dizer um monte de baboseira mas não acredite, a arte não é o que ele diz, é o que mexe, remexe e revoluciona, é por isso que ele quer tanto colocar a arte dentro de um vidro, uma moldura, um pedestal, pra tu pensar que arte é coisa que não pode pegar, amassar, revolver, mastigar, refazer. Eu tou mais interessada em sentir do que dizer.

segunda-feira, novembro 24, 2008

sexta-feira, novembro 14, 2008

minha preta, que o tempo sempre te traga coisas muito boas. Não porque hoje você faz aniversário, mas porque você merece e o mundo é um lugar melhorzinho com você dentro dele, de preferência sorrindo. beberei uma por você hoje, outra por teu sorriso e mais uma terceira pela saudade. Em suma, acho que vou beber várias. deveria ser feriado uma data tão bonita! Sou eu fazendo aniversário, são as pessoas que me gostam me dizendo tudo que eu tenho que ouvir. Mas eu chorei cedo, lembrando de minha adolescência em Salvador, a gente sem dinheiro fazia uma festa que parecia boba, parecia nada, acordava a pessoa com uma caixa de chocolate na mão e uma carta na outra, cantava parabéns, pronto, era isso, e o dia seguia sem mais complicações. Senti falta, mais do que da caixa de chocolate e da carta, do abraço. E nem telefonemas da França, mensagens de texto da Itália, vão fazer a falta que eu sinto ir embora. Parabéns para mim, então.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Dilema.

Fico aqui pensando: é chato ser gostosa ou é gostoso ser chata? Questão crucial para mais uma terça-feira sem sol.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Bahia de todos os sambas.

03/11/2008 - 08h10 Sambistas baianos mostram o melhor do ritmo regional no Sesc As informações estão atualizadas até a data acima. Sugerimos contatar o local para confirmar as informações da Folha Online
Riachão volta a São Paulo em shows com sambistas baianos Uma aula de samba -em seus diversos matizes - acontece em São Paulo nos dias 7 e 8 de novembro (sexta-feira e sábado), no Sesc Pompéia (região oeste da capital paulista). Os professores serão quatro importantes sambistas baianos: Riachão, Mariene de Castro, Nelson Rufino e Roberto Mendes, que apresentam as variáveis do gênero da Bahia --partido alto, samba de coco e samba do recôncavo-- no show intitulado "Bahia de Todos os Sambas". Riachão foi o primeiro compositor baiano a ser gravado no Rio de Janeiro após Dorival Caymmi, ainda na década de 50. Suas músicas "Meu Patrão", "Saia Rota" e "Judas Traidor" foram interpretadas por Jackson do Pandeiro. Por anos, entretanto, o nome de Riachão continuou ligado ao "povo do samba", tornando-se mais popular entre outros públicos somente depois de suas composições terem sido gravadas por nomes de peso da MPB, como Caetano Veloso ("Cada Macaco em Seu Galho") e Cássia Eller ("Vá Morar com o Diabo"). Sambista revelação, Mariene de Castro se inspira na música do Recôncavo Baiano Nelson Rufino é um dos principais compositores baianos. Autor da música "Verdade", que se tornou um clássico na voz de Zeca Pagodinho, Rufino já fez parcerias com Jorge Aragão, Martinho da Vila, Noca da Portela, Zé Luiz do Império, dentre muitos outros. Tem dois discos solos gravados: "A Verdade de Nelson Rufino" (2002) e "Cadê Meu Amor" (2004). Tanto o compositor Roberto Mendes quanto a novata Mariene de Castro criam seus trabalhos musicais a partir de pesquisas dos ritmos populares tipicamente baianos. Mendes, que dedica sua carreira à pesquisa e à prática da chula do Recôncavo, ritmo característico de sua região, já foi gravado e cantou ao lado de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Margareth Menezes e Gilberto Gil. Mariene de Castro, cantora da nova geração baiana, recebeu prêmio de melhor disco regional no Prêmio TIM de Música 2005, com o seu primeiro trabalho intitulado "Abre Caminho" (2004). O disco é resultado de intensa pesquisa musical da cultura popular, das canções do sertão e do Recôncavo Baiano. Choperia Sesc Pompéia - r. Clélia, 93, Pompéia, região oeste, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3871-7700. Sex. (7) e sáb. (8).: 21h. 800 lugares. Ingr.: de R$ 4 a R$ 16. Classificação etária: 18 anos. http://www.sescsp.org.br/

Extraído de www.guiadafolha.com.br/shows/ult10052u462291.shtml

terça-feira, novembro 04, 2008

Lua, lua.

Goiânia, agosto de 2008. Eu não, sei, menina, sei não, disse ele desvestindo a roupa e entrando de novo debaixo das cobertas, mas é esse olho quando me olha, ele me disse, me olhando, esse seu olho me chama e que chama, acende tudo, eu quero de novo, chega aqui, vem perto, vamos só mais uma vez antes de ir embora e nunca mais a gente se vê, como é mesmo o seu nome? Marina, ah, Marina, eu lembro, sabe que meu pai sempre cantava uma canção quando eu era pequeno que falava de uma Marina que se pintava, mas você não se pinta, seu olho quando me olha não tem pintura mas me devora mesmo assim, tu não precisa de lápis no olho pra desenhar todos os caminhos por onde vão passar meu coração até chegar na calmaria dos teus beijos de novo, eu vou embora, você também vai?, a gente não vai se ver mais, vamos aproveitar então, deixa eu chegar mais perto de você, quero saber o que tem por trás destes olhos que me olham, ou o que eles fazem quando descansam, quando tu dorme quem cuida de quem tu olha e seduz assim, me diz, me conta, ou não, tá bom, não quero saber, a gente não vai se ver mais. Vem aqui. _________________________________________________________________________ O que a solidão me trouxe? A palavra. Hoje sei sorver mais e melhor os doces e as passagens. Hoje sei escrever coisa bonita com dor no peito e no corpo. Hoje sei sumir e nunca mais dar noticia, ser ruim. A solidão me trouxe a calma de uma amanhã ainda solitário, então, coisas pra fazer, livros pelo chão e casa em desalinho, quem se importa? A solidão me trouxe o choro escondido, a fragilidade perene, a fragilidade forte que não assume ser frágil, que só assume as dores quando elas já não doem, a solidão me trouxe as defesas de novos amores, os esquivos de longos amores, as dores de amores que não vão embora junto com a ressaca. A solidão me trouxe. A solidão me leva. __________________________________________________________________________ 3 de novembro. Ali embaixo, rua de baixo, árvores retorcem o cimento da rua. Não passa nada. Três árvores, imponentes, sobrevivem. Eu passo perto delas, admiro suas raízes, lembro que só quem conhece suas raízes pode voar Foi assim comigo. Só quando conheci minhas raízes pude voar mais e melhor. E voltar sempre. Lá em Salvador, na casa velha, lembro que quando a gente foi derrubar a jaqueira no quintal, tinha raiz lá na sala. A gente assistia TV’em cima da raiz da jaqueira, isso por que ela deixava, por que ela quis. E eu gosto de um amigo que diz livro é arvore, é chão, é pão Me satisfaço então.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Eu levo jeito.

Nada demais presta. Vejam vocês, eu sou uma manteiga derretida. Ninguém choraria ali naquela hora do filme, o pai e a filha juntos cuidando da vaquinha no pasto, ela com um machucado na teta, olha como eu viajo, choro pensando como seria bom ter tido mais momentos de pai e filha com o meu pai. Lembro quando era criança e ele me fazia cócegas com a barba, eu fingia não gostar mas ficava pronta esperando ele me puxar pro colo e me futucar com sua barba carraspenta. Esses tipo das coisa, como diria meu amigo camaronense. Manteigo pra umas coisas, endureço pra outras. Tenho que aprender tanta coisa. Quando é que sou eu, quando é que é a outra pessoa que tem que falar, dizer, sentir. Não sei ainda nada do mundo e me arvoro a conhecer as coisas e os sentidos, não dá pra estudar as relações humanas no ponto de vista cartesiano, as relações são fluidas e quando você vai ver aquilo que doía cresceu e não dá mais pra dizer o que é, o que foi, misturou com outros sentidos e agora não tem mais tanta importância, deixa pra lá. Joel Rufino falou, eu assino embaixo. Essa mania de fitar estantes é minha também, e vai ver é por isso que adoro tomar banho de porta aberta (o vizinho também aprova!), do chuveiro consigo ver a minha estante de livros, cena inóspita e bela, adoro fitar estantes. De biblioteca, de livraria, vale qualquer uma. Correr a mão pelos livros, só olhar a capa, sentir o cheiro do livro, ler a orelha e guardar de novo, mesmo lugar. Mania. ______________________________________________________________________ 28.10.08 Ninguém sabe é de nada da vida. Quando tu pensa que fechou o livro de história vem mais uma historinha e tu se perde no fio da meada, bebida e mais umas palavras, suspiros, pronto, já fez besteira, já falou o que pensava e nem sempre é bom, não quando é para alguém longe e sem coragem, mais um, mais uma dose, na verdade, não é fácil, Vírginia diz quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém Guente uma dessa na cabeça e experimente ir dormir com esse barulho martelando lá dentro. Eu não sei de nada, nada mesmo, só sei do que sinto, e quando sinto eu digo, por todos os poros falando e refazendo, eu não tenho medo de nada, nem de bicho que voa na noite nem de amar de novo a mesma pessoa. Quem liga? Eu ligo, mesmo sem crédito. A cada dia que passa estou aprendendo a viver com menos. Menos dinheiro.

terça-feira, outubro 28, 2008

Lágrima de preta

Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: Nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio. Antonio Gedeão

quinta-feira, outubro 23, 2008

Presente.

Crianças, escrevam frases com verbos no passado, presente, futuro! Vem a menina: minha vó tem um passado eu tenho alguns passados terei um futuro pela frente

terça-feira, outubro 21, 2008

segunda-feira, outubro 20, 2008

domingo, outubro 19, 2008

Olhando no espelho.

Para a infância negra Construiremos Um mundo diferente Nutrido do axé de Exu Do amor de Obatalá Da espada justiceira de Ogum Neste mundo não haverá trombadinhas, pivetes, pixotes e capitães de areia. Abdias do Nascimento

sexta-feira, outubro 17, 2008

Venha, vá.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Pérolas.

A gente sempre esbarrando por aí nas pérolas das crianças. Dessa vez foi o mocinho, que via a professora todo dia falando que não podia mascar chiclete na sala nem chupar bala. Um belo dia, aparece a professora, enfiou uma bala na boca no meio da aula. A tarde inteira de danação e traquinagem, até a hora que a professora deu o sermão, dizendo que ninguém ia no parquinho, já que tinham malinado a tarde inteira. No que levanta o mocinho a gente vai no parquinho sim, professora, por que a senhora disse que não podia chupar bala na sala, e descumpriu o acordo. mostra a língua aí, tá vermelha, da cor da bala, mostra aí, vai A professora, muito consciente de seu papel e de seu exemplo, não ia descumprir o acordo, relembrado e proferido por uma criança de cinco anos. E pra completar, me disse e eu lá ia dar ousadia a ele de mostrar minha língua vermelha? fui pro parquinho, ele tava certo Da outra vez fui contar história num evento numa escola, peço pra todo mundo me dizer, nome, idade e série, escola onde estuda, chega a vez de uma menininha, meu nome é Gabriela, tenho seis anos, não estou na escola por que minha mãe não achou vaga Silêncio total, eu com que cara continuo ali, tentei emendar umas perguntas sem sal, mas tu quer estudar, ela hum-hum, menina pequena mas de alma coragem que me disse delicadamente, existe um mundo para além do seu moça-letrada, é o mundo onde as mães não conseguem vaga e eu, menina esperta que sou, quando sei que tem história de graça em escola perto de casa, vou. Aprendo mais assim, com essas pancadas da vida, do que lendo tratado de sociologia. ____________________________________________________________________ Cássia Eller disse que não sabia usar o amor. Será que eu sei? E quando a gente tá tristinha, faz o quê com o amor que tem pra dar? Será que o amor fica triste dentro da gente também? Será que fica com raiva? Amor com raiva faz bico e cara feia? Queria nunca mais repetir a cantilena, mas quero mainha, quero Lagoa, sofá vermelho, comer bolo de feijão com a mão, dormir na cama dela, chegar tarde e ir no quarto só pra ver se ela está lá. Mas também quero quero outras coisas, só não quero que me deixem, queria colo mas sem compromisso nem pena, queria cheiro de alfazema, quando eu era criança tomava banho e corria no colo de painho, só pra ele me cheirar. Mas agora é a dureza da vida toda, é mundo grande que não se acaba, palma da mão pequena pra mostrar o quanto andei, quero café com cuzcuz de manhã cedo me esperando, quero bater tampa de panela procurando comida que acabou de ser feita por ela em minha casa, quero mesmo que seja panela vazia, quero colo, quero alegria, gente sorrindo, conversando na rua, risada à toa, mormaço de fim de tarde, cheiro de chuva na terra, não quero guerra nem muita filosofia, quero meio do dia sol a pino, brincar de fura-pé que nem menino, quero-quero tanta coisa, mas fico aqui na frente dessa máquina, esperando o tempo passar, só pra mudar de tempo, quero e não sei se não resolvo por medo, desespero ou desemprego.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Nem que eu bebesse o mar,

Enche não. Enche o fundo não. É quando eu venho pra essa casa, dormir aqui, sentir esse frio dessa casa, mas esse coração quente da dona dessa casa, que eu sou mais feliz. Ela olha pra minha cara e me xinga todinha, diz que eu não ligo pra ela mais, e eu digo que ligo e ela não me atende, ela diz que eu ligo e só toca duas vezes, daqui que ela saia do tanque de roupa e chegue com a mão sequinha pra me atender o telefone já parou de apitar, eu é que sou apressada, só ando correndo, dorme aí, vai, antes de entrar no serviço, só um pouquinho, chegar atrasada um dia só, quem liga? Eu passando na rua, as crianças me comprimentam, dos dois anos aos onze, elas me conhecem, algumas querem só dizer oi, outras pulam no pescoço, outras querem tocar minha mão, é só isso. Não quero conversa por que às vezes você escreve mas quer que um certo alguém diga que legal o que você escreve, mas ele nunca diz, mesmo que todo mundo ao redor dele diga, ele só fala "bom", e muda de assunto, que chato isso, por que você escreveu pra ele, ou, pelo menos, pra ele dizer o que acha. Deixa. Então por isso me larga. Estou cansada. De um monte de coisas. Cansada de solidão. Culpa minha? Culpa não. A sensação que eu tenho é que um acarajé de Cira resolveria tudo isso.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Me largue.

Não enche. Não quero papo com nada nem com ninguém.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Antídoto.

http://www.itaucultural.com.br/index.cfm?cd_pagina=2830 Ilê Aiyê em São Paulo. Mesmo que venha só metade da Aiyê, mesmo que eles e elas só cantem e dancem duas músicas no meio do show todo, vale a pena ficar na fila.

Mais da mesma.

mulher tão presença e tão preciosa e só vou responder pra você que merece atenção agora e sempre, a minha, a tua e a do povo que se enredar na tua bateria responder que tu merece muita idéia e consideração, não sei se mais do que você imagina, porque você é fera, é pessoa de olhar bom e de gira e de vontade de transformar raiva em amor tu é massa
Bahia que não me sai do pensamento. Aeroporto Dois de Julho, Salvador.

quarta-feira, outubro 01, 2008

São Paulo mesmo.

Que interior que nada. Isso é São Paulo.
Quer comer uma galinha? Leia a receita de Vó Teté, caderno 2:
Modo de Fazer:
1. Mate a galinha.
Quá.

Migh Fotógrafa.

Guia de Melhores Banheiros de São Paulo, por Migh Danae.
Se você estiver pelo Centro e quiser fazer um pipizinho básico, dê uma paradinha no Centro Cultural da Caixa. Melhor banheiro no quesito charme, tranquilidade e limpeza.
Detalhe na poltrona must.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Ainda criança.

Estava eu, ali, brincando na sala com o laptop de uma criança, de brinquedo, estava eu ali, digitando, absorta, no que me cutuca uma outra criança, me prevenindo tá sem pilha, professora Me ajeitei na cadeira, fingi não ouvir bem, continuei teclando, todo mundo agora sabia que era tudo mentira, que não tinha pilha e era só minha imaginação, não se fazem tempos e espaços como antigamente, quem dirás das crianças, ora vejam só. Antes eu tinha passado na casa de Vó Teté, já falei dela aqui, já falei de Vô Florêncio, em dezembro completam 50 anos de casamento, hoje ele me disse eu amo essa moça aí mesmo, por que o que ela me aguentou Vó Teté suspira, lamentando o periquito que morreu, Vô Florêncio resmunga só falta morrer o dono da casa Vó Teté se irrita e diz, se você morrer, é melhor que eu vá logo junto, aguento não Tanta dose de amor assim, no meio do dia, quem não aguenta sou eu. Dormi um pouquinho e vim trabalhar. Não sem antes ouvir vô dizer gente criada no mundo fica danada demais. eu nunca estudei, sou analfabeto, mas o mundo é uma escola para quem não sabe viver

quarta-feira, setembro 24, 2008

Vamos estudar que é bem bom. Clica em cima que aumenta, vice, não tem desculpa pra não ir.

4º Prêmio CEERT Educar para a Igualdade Racial.

alguém quer agarrar meu copo,
edson e o jongo,
sambando com pai de billy,
me deixe,
Além de estar lá, dançar e sorrir, ganhei o prêmio. Eu aCEERTei, mãe. E agradeci a mainha, claro, mulher guerreira que me criou, e que com a sabedoria do cotidiano me deu as palavras certas na ponta da língua para enfrentar discriminações e preconceitos, sem ter aprendido em banco de escola nenhum, na lida do dia-a-dia forjou as armas necessárias para continuar vivendo, vivona. Agradeci às mulheres negras que me antecederam e aquelas que aí ainda estão, ofereci para elas o prêmio, por que
mulheres negras nunca desistem
Me aplaudiram, mas teve gente que torceu o nariz. Quem disse que eu ligo? Samba, cerveja e sorrisos.

Manuel de Barros.

Por que como diz Manuel de Barros as coisas muito claras me noturnam com as palavras se podem multiplicar os silêncios se a gente não der o amor, ele apodrece em nós (nós, pessoas, nós, pedaço de corda - penso eu) E eu gosto da invenção da vida que ele faz, tudo o que ele não inventa é falso, é isso mesmo. Demora pra entender tudo isso, mas a vida é isso mesmo, invenção.

Só sorrisos.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Ana & Ana, livro de Célia Godoy.

Capa do livro
Crianças, o que elas podem (e devem!) fazer.

terça-feira, setembro 16, 2008

Eleições 2008.

E eu que não tenho tempo de assistir TV, ouço minhas crianças comentando o horário político. professora, o Maluf disse que é meio rico e meio pobre No que a outra emenda meio pobre de consciência, né? E uma outra mocita o Kassab fica dizendo por aí que construiu um monte de AMA. Mas de que adianta construir, se não tem médico? Fiquei só calada ouvindo as discussões pipocando, as crianças defendendo esse e essa ou atacando esse e essa, exercendo enfim, seus direitos de escolha, de debate. Mais engraçado foi quando eu expliquei o que era democracia. Eu disse alguma coisa sobre poder do povo, e todos e todas começaram a rir. Me perguntaram em que país tem democracia, professora? Mas aí expliquei que a gente votava e não cobrava, que a gente era responsável. No que vem uma e me sapeca mas minha mãe trabalha o dia todo, como é que ela vai ter tempo de ir lá na câmara reclamar? Aí a outra me mata a escravidão acabou, professora? Eu disse, é isso, é um círculo vicioso, blá, blá, blá. Depois dizem por aí que criança não sabe das coisas.

terça-feira, setembro 09, 2008

Vai lá, eu te garanto, eu de vestido branco e preto, eu sorrindo.

Vem, mas Vaz.

Encontrei enfim paz. No Vaz. O cara escreveu tudo que eu tentava dizer, quando queria falar de Sampaulo: são paulo é bonita por que é feia, e como toda feia que se preza, beija gostoso. que o Vinicius me perdoe, mas feiúra é fundamental Quer ler o resto? Se puder, procure a Folha de São Paulo de domingo, DNA Paulistano, um caderno que fala das agruras de cada zona da cidade e leia, na última página, a poesia concreta do moço. Se não conseguir, vai lá em casa que te arrumo o texto. E se gostar e quiser mais ainda, vai em http://www.colecionadordepedras.blogspot.com/ Nem fui lá ainda, para não ficar mais louca de amor. Ainda. Respiro fundo.

segunda-feira, setembro 08, 2008

http://www3.fe.usp.br/efisica/negritude/ Se inscreva tu também. Eu já vou mesmo. E uma amiga minha me conta que o aluno dela diz professora, quem cacheia o seu cabelo? Ela, numa boa ele nasceu assim mesmo, seo moço Ele não entende, vai brincar. Como diz minha mãe, o errado é que tá certo, o certo é que tá errado Tá tudo de cabeça pra baixo, então pára o mundo que eu quero descer. Festa lá em casa dia treze dos nove, vai quem quer (e sabe o caminho).

sexta-feira, setembro 05, 2008

A tal lista.

Comecei, mas é tanta gente e a lista tá em aberto que decidi parar. Quem quiser, procura na internet. Contracotas:
Adel Daher – Diretor do Sindicato dos Ferroviários de Bauru e MS
Adelaide Jóia – Socióloga e Mestre em Educação Infantil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
Adriana Atila – Doutora em Antropologia Cultural, IFCS, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Aguinaldo Silva – Jornalista, telenovelista
Alba Zaluar – Titular de Antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Livre-docente da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), colunista da Folha de S. Paulo
Almir Lima da Silva – Jornalista, Centro de Cultura Negra de Macaé-RJ
Alzira Alves de Abreu – Pesquisadora do CPDOC da Fundação Getulio Vargas
Amâncio Paulino de Carvalho – Professor da Faculdade de Medicina Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Ana Maria Machado – Escritora, membro da Academia Brasileira de Letras
Ana Teresa A. Venancio – Pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
Ângela Porto – Pesquisadora Titular, Fundação Oswaldo Cruz
Antonio Cicero – Poeta e ensaísta
Antonio Risério – Antropólogo
Arlindo Belo da Silva – Conselheiro Fiscal da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Químico (CNQ–CUT)
Bernardo Lewgoy – Professor Adjunto do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Bernardo Sorj – Professor Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)Bernardo Vilhena – Poeta
...
e por aí vai...

quarta-feira, setembro 03, 2008

Cabelo Pixaim.

Respeitem meus cabelos, brancos

Chegou a hora de falar

Vamos ser francos

Pois quando o preto fala

O branco cala e sai da sala com veludo nos tamancos

Cabelo veio da Àfrica

Junto com meus santos

Respeitem meus cabelos, brancos

Nem preciso ensinar pontuação, canto e as crianças entendem, deixam, deixam, a madeixa balançar.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Vinho.

Vinho. Cor de vinho. Muito vinho. A solidão é vinho, e a minha cabeça roda. Danço nua na frente do espelho, sorrio, choro, penso em coisas, penso em pessoas, tenho frio. Sorrio. Penso em dormir, em escrever. Não consegui assistir Nome Próprio. Não gosto da Clarah Averbuck. Não sei por quê. Acho ela pedante. Nem a conheço. Só acho, e não estou certa, vai saber. O filme é só baseado nela, ela mesma disse que não tem nada dela ali no filme, não no sentido literal, visceral. Mas não quero ver a Leandra Leal dando uma de junkie das letras, não faz o meu tipo esse tipo de escrita. Escrita como desespero? Até funciona, mas não daquele jeito. Daquele jeito do trailler. Para mim ficou fake demais. Talvez funcionasse com uma atriz desconhecida, ou, como chama as revistas que dizem entender de cultura, uma não-atriz. Mas talvez, só para me contradizer, eu assista e goste. Por enquanto, vou de música boa e som de tecla batendo noite adentro. Fico pensando que alguém que pegou meu telefone vai me ligar, e eu vou dizer não. Só pela graça de dizer. Ir dormir só, encostar na parede fria no meio da noite, despertar com sede. Gosto de conversar com pessoas, de fazer elas sorrirem. Gosto de rir com elas, de sorrir o sorriso delas, de ver a risada saindo da boca. Gostaria de saber dizer as coisas que sinto do jeito que sinto, mas não saem, não sei dizer tudo o que sinto, fecho os olhos e me concentro na guitarra que dedilha notas no meio de mais uma música, mas já passou, agora não vai dar mais, espero a guitarra, espero uma ligação, esperoespero. Com sono. E fez-me rir o Pedro, falando sobre o acordo ortográfico. Esse moço é um docinho: Algumas observações interessantes: ultra-romântico, será ultrarromântico; ultra-som, ultrassom; microondas, agora é micro-ondas; reescrever, talvez, passe a ser re-escrever – existe a variedade rescrever e também o conceito de composição para definir essas coisas. Agora, inter-racial, será inter-racial, mesmo, nada de interrracial, não senhor! Bastante lógico, não? O novo acordo, ora busca fundamentos na fonética, ora na cabala ou na astrologia (www.balaiodopedrao.blogspot.com) E viva Marcos Bagno, que me libertou, hallelujah, diz Ray Charles em sua música Hallelujah I Love Her So.