Você que me lê, me ajuda a nascer.

terça-feira, setembro 22, 2009

Racismo.

professora, não é que é racismo se eu chamo alguém de preto? depende, depende de como você usa o termo Levanta uma outra criança e diz se você me xingar de preto, posso te processar por que isso é racismo, mas se você me chama de pretinho, depende, né? E vira pra mim: mas ele nem pode me xingar de preto, né professora, ele também é, não é?

Eu canto.

Não resisti quando vi essa menina preta Roubei pra mim. Lembrei quando mainha penteava meu cabelo pra ir à escola e eu ainda nem sabia que ia precisar usar óculos, precisava sentar bem na frente e minhas colegas lá do fundo reclamavam do meu cabelo, davam risada dos meus pompons. E eu tinha - ou tenho? - um narizinho assim, mainha falava que era narizinho que o boi amassou Não sei de onde ela tirava essas coisas. Mas ela é mãe, não precisa se explicar. Liiiindo.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Tudo bem.

Faça o teste. Quando alguém perguntar tudo bem, aproveite pra dizer não tá não, para ver só o que acontece.
A pessoa se senta, faz cara de preocupada, te pergunta o que aconteceu, fica triste, compadece. Chama outras pessoas pra ouvir, dá dó. Mas se tu responde tudo bem, não dá ibope. E parece que as pessoas se preocupam mais, por que ser feliz não tem graça, é isso, né, ela tá feliz, ah, deixa ela pra lá, que droga, né? Nem tem nadinha assim pra gente sapatear em cima.
A desgraça vende mais. Tanto é que um dia desses saiu uma manchete de capa boa no jornal e eu guardei, se tivesse câmera tirava foto e botava aqui. Falava assim
emprego aumentou pra caramba
Fiquei boquiaberta de feliz. Mas não vende. Eu também acho graça quando noticiam
a popularidade de lula cai de 76,8 por cento para 72,4 por cento
Vejam vocês, nenhum presidente teve tanta popularidade, e todo mundo torce o nariz pra esses tais "institutos de pesquisa", mas mesmo assim gasta-se dinheiro fazendo uma matéria dessa. Como diz minha mãe
o errado é que tá certo
Tem amiga que diz pra mim, quando perguntarem, não diga tudobem assim rapidinho, faz cara de tristeza, fala um tudo bem doído, pra não secar nada. Eu tou fugindo dessas coisas.
Ópaí, ó.

Mãe Hilda Jitolu.

Foto extraída do site Ilê Aiyê
O grupo cultural Ilê Aiyê está de luto. Faleceu, hoje, às 10h30, sua líder espiritual, Mãe Hilda Jitolu.

domingo, setembro 20, 2009

Wynton Marsalis Assistam e sejam felizes, assim como eu e o menininho preto.

Tristesse.

Tem tanta coisa triste acontecendo e eu fico triste pensando na tristeza dos outros, mas esqueço que aqui do lado também tem coisa a ser feita.
Então, só por um momento, vou pensar em mim.
Queria que esse tempo durasse mais, mas volta e meia fico pensando no que ela tá sentindo e se minha dor vale a pena.
Deixa tudo isso pra lá.
Não quero falar mais.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Questão.

Na hora de contar uma história do livro de Rogério Andrade Barbosa, Histórias Africanas para contar e recontar, a criança me diz quando vê ilustração Na África todo mundo é preto E eu falo E na Europa tem muito branco Aí ele me faz a questão, como dizia minha vó E por que aqui no Brasil a gente tem um bocado de cor assim, professora? Quer saber o que eu respondi? Não vou dizer. Mas o que você responderia? Aproveitando falar de livros, o livro Neguinho Aí, de autoria de um tal Luís Pimentel, merece ser retirado das livrarias, sob acusação de racismo. Já na contracapa, ele diz: neguinho aí é qualquer criança pobre, independente da cor Engraçado, né? Se é tão independente da cor, por que o livro não poderia ser Branquinho aí, para falar das crianças pobres? Pra não dizer do resto, texto e ilustração (blé!) Vou ver o que consigo fazer contra.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Chuva.

Lá fora está chovendo, e ainda bem que eu não preciso ir correndo pra ver meu amor passar.
Ele ainda dorme.

domingo, setembro 13, 2009

Nostalgia.

a saudade mata a gente a saudade é dor pungente Música cantada por Bethânia, não sei quem escreveu, não quero procurar. Por que eu tava num samba semana passada e o moço perguntou isso mesmo, de quem é a música, de quem escreve, de quem canta e ele disse é de quem ouve. Recebi um email lindo de amor e de amizade hoje cedo, então eu sou feliz. Incrível como algumas pessoas, mesmo sem te conhecer, falam coisas sobre você que você também acha, mas fica com medo de dizer il m'a semblé que ta fréquentation assidue des salles de cinéma démontrait un besoin impérieux de te sortir de ta vie quotidienne. J'ai probablement dû être un "petit" moyen d'évasion pour toi É isso aí tudo mesmo. Eu acho que há muita descoragem no mundo. De descor mesmo, de descorajosas pessoas também. É um dia bonito demais para se dizer isso. Tem sol. Mas é preciso ter coragem. Pelo menos um pouco, todos os dias, ao se levantar pela manhã. Malfada com seu pouco tempo de vida acordava e às vezes não queria pôr os pés no chão, no mundo. As crianças, as baratas e as mães é que salvarão o mundo.

sexta-feira, setembro 11, 2009

De novo.

É bom mudar. Eu acho, né?
A mocinha veio toda esperta me contar que ela não ia mais com o transporte da escola, pai e mãe sem dinheiro para pagar a mensalidade. Mas ela arrematou
mas eu gosto mais assim, não gosto de ir de perua pra casa, agora minha mãe e meu pai tem que vir me buscar, eles não gostam, mas eu gosto mais de ir com eles, por que eu quase não vejo eles
E hoje, quando ela chegou, na moto do pai e com o sorriso largo, entendi o que ela queria dizer. É a mesma mocinha que no meio da tarde senta quietinha no canto e eu pergunto por que e ela diz
fiquei com saudade da minha irmã Bibi
É pra isso mesmo que a gente vive.

Malcolm X.

Eu também posso ser tiete, né? Mas só um pouquinho. Além de lindo, inteligente. Sensível e bem-humorado? Não dá pra ter certeza, mas eu finjo que posso ver isso por detrás das lentes e suspiro, suspiro. Candidatos a namorado de Migh não precisam ter ciúmes de mais ninguém. Ninguém.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Chora não.

Tava eu aqui querendo consolo quando uma moça preta amiga de tempos mas mais de online mandou essa: chora não, num chora pelo que tu nunca teve, fia Limpei as lágrimas, nem chorei. Ela tá mais que certa e me fez lembrar que deve ser por isso também que o povo preto num chora. Nunca teve piedade pra pensar em chorar por ela. Por isso fez mais bonito e me dá mais orgulho ainda. Essa moça preta. Eita.

terça-feira, setembro 01, 2009

Não é bem assim.

Quando você olha pra trás e vê que não foi bem assim, dá tristeza. E dá preguiça de começar de novo. O que é bom de fazer? Deitar na cama e esperar a vontade de chorar passar. Faz tudo de novo, quem sabe? É uma briga com seu coração. Amadurecer.

quinta-feira, agosto 27, 2009

Ali.

Eu converso com as pessoas só pra roubar as palavras delas.
pêndulo
primazia
eu-nós
calor da hora
resumida-mente (dito à boca pequena)
ma petit (o francês)
prospectiva
propedêutico
honraria
Saiam de baixo, eu cheguei.
E falando com mainha, disse do medo de pensarem que eu fiquei esnobe. E ela me acalmou dizendo
não se preocupe se disserem filha, você sabe, você não é
Aquietei então.
E é ele ali, te dizendo oi. Você quer ir embora, mas não consegue dizer não, por causa do passado, que teve vinho e foi bom. Alguém talvez te espere numa outra estação, mas você não consegue subir no trem, fica ali parada.
Uma, duas estações.
Vai ser sempre assim?
As pessoas sempre voltam?

quinta-feira, agosto 13, 2009

Cantada em Olinda.

Michal e Chris.

Meu primo de cinco anos me pede
Põe o clip do Michael aí
E eu quero ver Chris Brown, ele diz
Mas Michael é melhor, põe aí
Eu digo que
Mas sabe que esse cara imita ele?
Ele diz
Se imita, melhor ver Michael né?
Né.

Tem-po.

Na verdade, eu deveria escrever mais aqui. Mas é que... bem... acontecem tantas e tantas coisas que tem tanto e tanto sentido, chego em casa correndo e quero escrever aqui - eu já disse isso, eu sempre escrevo isso aqui, parece mea-culpa -, mas quando abro a tela fico olhando e mordendo o lábio, pensando que não vou conseguir, mais um vez, escrever como foram as coisas todas.
Como ir no parque e passar o domingo namorando. E fazer joguinhos do tipo complete a frase "eu me sinto..."
Como ouvir crianças sorrindo. Como vê-las sorrindo.
Como ler Negras Raízes e chorar.
Como entrar no Outback e procurar uma atendente negra e não encontrar e ficar triste com isso.
Como ouvir uma senhora negra no trem falando da situação da Palestina.
Como ver a mãe feliz de cinco filhos.
São essas coisas todas que me fazem, pessoas que perdem a graça também me fazem pensar e querer viver mais, odiar a palavra inveja, ouvir música que dizem ser ruim e não conseguir parar de ouvir. Fico sempre achando que ninguém vai querer ler isso, mas fico me sentindo mal por não escrever mais e sempre, poesias, histórias, coisas assim bonitas, talvez eu esteja me dedicando a outras coisas e pessoas e falando poesia por aí, mas eu penso em escrever e acho que nada nada está a altura do blog. Como agora.
Vou tentar, eu juro.

sábado, agosto 08, 2009

Biquíni.

Ele não sabe nada. Não sabe amarrar biquíni, não sabe cantar nenhuma música direito, não sabe fingir as coisas, não mente para os parentes, não acorda cedo nem toma banho rápido.
Mas me ama como se fosse a última coisa que quisesse aprender.

Mainha e futebol.

Vou te explicar por que mainha é especial: só ela sabe de cor os nomes dos estádios de Recife e João Pessoa, sem pesquisar no google ou pescar no jornal da semana.
Ah, Arrudão e Almeidão. Nessa ordem.
Só ela usa o verbo locupletar no meio da frase, assim, do nada.
Só ela fala latim no meio da conversa, assim, do nada.
sine qua non
pari passu
Essa coisas eu ouço desde muito pequena. Deve ter ativado parte do meu cérebro e aí me tornei assim inteligente. Ehe.

Futebol.

Não reclame se o moço gosta de um futebol danado. Se ele joga todo fim de semana. É bom. Já vistes? Futebol faz homem fazer várias coisas ao mesmo tempo, coisa que eles sempre reclamam de não conseguirem ao longo da vida. Pensem que Ronaldo é Ronaldo simplesmente por que ele consegue antever a possibilidade de um gol, e isso é coisa que só um homem que pensou e correu - pro canto certo, olha ele lá, gol - pode fazer.
Jogar futebol ajuda muito, os moços acabam aprendendo a se desdobrar na vida. E isso é mais do que importante. Quando passarem alguns anos de namoro, você vai entender mais.