Você que me lê, me ajuda a nascer.

quarta-feira, abril 29, 2015

Amada.

Toni Morisson

Acabei de ler Amada (Pulitzer de 1988) de Toni Morisson, autora que que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1993, ano em que eu tinha 13 anos e ia conhecer ainda Geni Guimarães com A Cor da Ternura, livro que já comentei aqui. Demorei muitos meses para terminar, porque era difícil continuar um livro que conta a história de Sethe, uma moça escravizada que, num ato desesperado, tentar assassinar uma de suas crias na tentativa de protegê-la do horror que ela esteve submetida por anos. Amada é o nome da moça, que depois de muito tempo aparece novamente, voltando para casa e para a vida de Sethe e de sua outra filha, Denver.



Mas a história não é só isso e não pode ser resumida nessas poucas palavras. Morisson tem tudo que é possível ter de beleza numa escrita sobre sofrimento, sobre nossa história, sobre dor. Ela consegue me fazer chorar sem deixar a lágrima cair, ela consegue me curar as feridas de uma alma ancestral, ela é parte do que eu me sinto agora, do que eu sou hoje. 

Capa do livro Amada, tradução de Massaro, publicado pela Ed. Nova Cultural, 1987*

Enquanto lia, tentei separar algumas partes para transcrever aqui, mas não conseguia levantar para buscar um lápis ou simplesmente lembrar-me de fazer qualquer marca, eu apenas lia e lia, arrebatada. Lia, depois passava dias longe do livro, olhando ele ali de lado deitado na cabeceira da cama. Eu pensava em Sethe, em Denver, em Amada e em Paul D., e em como o fim do livro parece com a minha história hoje. Como Toni Morisson consegue isso? Eu me pergunto. Eu só posso pensar que ela cava bem fundo dentro dela mesma e encontra todas nós, mulheres negras, dentro de seu útero, pronta para serem nascidas. 

Copio uma parte do livro bastante divulgada na internet, o sermão de Baby Suggs, sogra de Sethe:

“Aqui”, ela disse, “nesse lugar mesmo, somos carne; carne que chora, gargalha; carne que dança descalça na grama. Amem isso. Amem isso com força. Porque lá eles não amam sua carne. Eles desprezam ela. Eles não amam seus olhos; eles arrancariam eles assim que pudessem. Amam menos ainda a pele de suas costas. Lá eles esfolam vocês. E oh, gente minha, eles não amam suas mãos. Essas eles só usam, amarram, acorrentam, decepam e largam vazias. Amem suas mãos! Ame elas. Levantem elas e beijem elas. Toquem outras pessoas com elas, batam palmas com elas, esfreguem elas no rosto, porque eles também não amam elas não. Vocês têm que amá-las, vocês! E não pensem que eles adoram a boca de vocês. Eles, lá fora, eles vão vê-la quebrada e vão quebrá-la de novo. O que você fala com ela eles não vão prestar atenção. O que você grita com ela eles não vão ouvir. O que você coloca nela para nutrir seu corpo, eles vão arrancar e te dar as sobras no lugar. Não, eles não amam sua boca. Vocês têm que amá-la. É da carne que estou falando aqui. Carne que precisa ser amada. Carne que precisa descansar e dançar; costas que precisam de apoio; ombros que precisam de braços, braços fortes é o que eu digo. E oh, gente minha, lá fora, me escutem, eles não amam seu pescoço livre e ereto. Então amem seu pescoço; ponham uma mão nele, façam carinho e toquem ele e o mantenham firme. E todas as suas vísceras, que eles iam usar como lavagem pra porcos se pudessem, vocês têm que amá-las. O fígado escuro, escuro – ame ele, ame ele, e o coração cansado e pulsante, amem ele também. Mais que os olhos ou os pés. Mais que os pulmões que ainda vão sorver ar livre. Mais que seu útero segurador de vida e as partes íntimas que plantam vida, me escutem agora, amem seu coração.” (p. 87)

Em 1998, há o lançamento do filme Bem Amada, que vi antes do livro e é inspirado nele. Recomendo também!


Encontrei um estudo sobre o sermão aqui.

*Há uma outra publicação em 2007, pela Companhia das Letras. 




terça-feira, abril 28, 2015

Seu Jura.

O senhorzinho sorria com uma cara descarada jogando uma partida de xadrez e lamentando sua má sorte. Mas era tudo mentira. Ele jogava bem, mas fingia que era um fracasso no xadrez. Fazendo assim, levou as duas partidas.
Seu Jura, moço aposentado que leva a vida ensinando xadrez. 

Não olhe pra trás.



Astigmatismo.

Ele olha bem dentro dos meus olhos e diz

você tem astigmatismo

E eu suspiro boba, mas ele explica sobre a luz e as piscadelas que eu dou quando o sol tá indo embora.
Mas é a profissão dele, a luz, a fotografia, ele sabe tudo.
Mas ainda assim eu suspiro boba, prefiro fingir que é paixão e que ele sabe tudo de mim.

Talvez não saiba, mas continua me olhando, mesmo depois que a luz do sol vai embora e somos só nós e a lagoa. Talvez não saiba, mas ainda assim, eu gosto.


segunda-feira, abril 27, 2015

sábado, abril 18, 2015

Pacto.

Vamos fazer assim, vamos ficar juntos.
Mas de longe, contando nossas histórias.
Sem perder o controle.
Não fala meu nome três vezes, não me pede calma.
Faz silêncio depois de uma frase de efeito, me diz outra.

Vamos fazer assim, não falar de desejo e sentimento.
E vamos ajudar um ao outro a continuar a nossa vidinha que não escolhemos direito.
Não me pergunta se eu te quero, eu não vou fazer o mesmo.

Com a certeza de que nunca faremos nada para nos machucar, seremos felizes então.


Precipício.

Eu, medo (mas)
Me jogo, pulo alto.
Aposto, não acerto. 
Vejo o erro e corro por ele, pra ele, deixo ele acontecer.
Sou humana feita com a mesma carne daquelas pessoas que erram.
Com medo, mas também pelo medo, vou ao encontro dele.

Feita de pó, lama, barro e espírito bruto
Estou errada, errante, sou medrosa
(mas) vou em frente.
Digo que não posso (é mentira)
Finjo que não (é mentira)
Roo unha, coço o indicador com a ponta da língua (é sim de verdade) 
E penso nele
E em mim, nós dois.

Mas deixo pra depois
Me ocupo de coisas desimportantes (que às vezes tem ele também)
Ele, o erro. 
Ele, o homem. 
Ele, o precipício

E me lanço, voo alto, incerto.
Daqui de cima, um infinito de possibilidades.


quinta-feira, abril 16, 2015

Amor demais.

Foi tão automático que ele me perguntou onde eu estava que ele nem sequer percebeu direito que parecia quase gafe ele querer saber de mim mesmo sem ser "o" homem.
Fingi que não foi uma falta grave e disse, não tinha o que esconder. Fui ali ver o por-do-sol, só isso.
Mas ele me deu tchau, não podia mais falar ao telefone. Estava ocupado.

Eu, despreocupada.

domingo, abril 12, 2015

Desejo.

A gente conversa por horas. 
E lá pelas tantas o sinal some o celular descarrega o bônus não entra a moda não pega.
Aí a gente desconecta.
É assim.
Falamos por horas, mas o que eu sinto por ele tem seis letras. 
As mesmas do título desse post vagabundo.

sexta-feira, abril 10, 2015

A praia.

A voz dele me lembra o mar.
O cheiro do mar, quando as ondas batem nas pedras, o mar.

Sempre é o tempo que me dá rasteira e me mostra que eu ainda posso me surpreender com aquilo que sinto. Com o que me fazem sentir. Ele melhorou, eu também, vai saber. 

quinta-feira, abril 09, 2015

quarta-feira, abril 08, 2015

Novembro Negro GENERA (FEA-USP).


Veja o vídeo aqui:
Duração total: 1:34:09
Adicionado em: 06.04.2015
O que é ser negro no ensino superior: impressões, construção, incentivos e limitações Grupo de discussões apresentando percepções de alunos, funcionários e professores negros em instituições de ensino superior
Coordenação: Profa. Sandra Maria Cerqueira da Silva Mattos e Profa. Dra. Silvia Casa Nova
Participações: Angela Lucas , Carolina de Carvalho, Gabriel Milanez, Joana Nunes, Marcus Silva, Mighian Danae, Nilson de Oliveira, Thatiane Gomes, Sandra Mattos
Categorias: Qualidade de Vida, Políticas Sociais, Educação, Cultura, Administração Geral

domingo, abril 05, 2015

Coisa feita.

Ele sai do trabalho, ele me liga, ele não me esquece.
Mas nunca dá tempo e ele some, ele aparece.
Diz que me procurou, mas no ecrã não tem o nome dele.
Apago do celular, desativo aplicativos.
Mas é uma doença, sarna, encarna.
Na pele, pensamento, bocas e queixas.

Ele vem pro trabalho, eu o espero.
Eu o vejo passar.
No intervalo, no meio da tarde, ele come um sanduíche que está dentro de uma marmita.
Quem fez eu não sei, ele jura ser a mãe, eu temo ser a ex.
Eu temo, mas não digo nada.
Fico ali do lado enquanto ele mastiga calado, olhando a praia do outro lado.

Aponta pra uma pedra, meio do mar e diz.
Eu queria a gente ali agora.
Eu penso na vida real e digo.
A maré tá alta, você não chegaria a tempo de bater o ponto.
Ele abaixa a cabeça, o último pedaço do sanduíche cai no chão, ele amassa com o pé, tampa o vasilhame.
Fica de costas, o tchau sai abafado.
Volto para o ponto de ônibus sem me despedir.

À noite, ele liga, ele não desliga, ele reconhece, pede desculpas.
Mas não é nada, é só a vida que nos atropela, todos dias.
Nós e os nossos sentimentos. 

Dor.

Não há remédio, nem aqueles que dizem que tiram a dor com a mão.
Não há remédio para uma mentira mal-contada, para desprezo, para silêncios, vergonhas e medos.

Essas coisas sempre vão fazer doer. E muito.

sexta-feira, abril 03, 2015

A coisa à volta do teu pescoço.




Numa das últimas viagens, comprei o livro A coisa à volta do teu pescoço. Achei que a tradução para o português de Portugal deu mais beleza à narrativa de Chimamanda, muito embora eu possa apenas estar de nariz torcido para a tradução da Companhia das Letras, que não publicou ainda esse livro, mas que na minha opinião, faz todos os outros livros dela parecerem iguais (essa é uma birra antiga, quando eu ainda nem tinha lido Chimamanda e sim a história de Henrietta Lacks). 
Este é um livro de contos que gira em torno de histórias de doze mulheres.
Divididas entre dois continentes - África e América -, estas mulheres lutam por um lugar e uma identidade no mundo moderno mas também pela preservação dos valores da sua cultura de origem. Quer vivam no inferno de um país como a Nigéria ou num subúrbio aparentemente calmo dos Estados Unidos, elas não têm uma vida fácil. As ameaças que enfrentam podem ter origem na guerrilha ou no funcionamento de um forno microondas mas os seus dilemas contêm toda a história de um continente. (Extraído do site da Fnac.pt)
Gosto especialmente do penúltimo conto intitulado Casamenteiros, que conta a história de Chinaza, tornada Agatha quando decide casar-se com um homem nigeriano já vivendo nos Estados Unidos, que o tempo todo tenta ensinar-lhe os modos americanos e como deve esquecer da maior parte das coisas que deixou na Nigéria. Essa angústia de Chinaza é legítima e traduz o que a maioria das pessoas que saem de seus lugares sentem quando vão para longe. Muito embora essa angústia também apareça em outros contos e justamente naquele que dá nome ao livro, nesse conto, para mim, Chimamanda consegue ser mais honesta com relação aos sentimentos que, vá saber, eu também tenha sentido algum dia na vida.
O inverno apanhou-me de surpresa. Numa manhã, saí do prédio e fiquei sem fôlego. Era como se Deus estivesse a rasgar lenços de papel brancos  e a atirá-los cá para baixo.

Esse jeito de escrever me faz ter vontade de que o conto nunca acabe, assim vou lendo aos pedacinhos, mas com vontade de saber o que tem na outra página. Sofro, mas é um sofrimento gostoso, como quando a gente aperta o dedo com aquele corte de dois dias atrás.
Se eu pudesse, teria lido o livro começando por esse conto, e depois passaria ao antes desse, chamado O Estremecimento, que conta a história de Ukamaka, sua separação com o namorado nigeriano que conheceu nos Estados Unidos quando estava a fazer o doutorado e sua relação de amizade com Chinedu, este também nigeriano.
Ele disse-lhe que se chamava padre Patrick e que a vida não fazia sentido, mas que todos tínhamos de ter fé, mesmo assim. Ter fé. "Ter fé" era como ser alta e bem-feita. Ela gostaria de ser alta e bem feita, mas é claro que não era: era baixa e não tinha rabo e aquela parte mole da sua barriga teimava em parecer um pneu de gordura, mesmo quando ela usava a cinta Spanx, com o seu material elástico que apertava. Quando ela disse isso, o padre Patrick riu-se. 
- "Tenha fé" não é realmente como dizer "seja alta e bem feita". É mais como dizer: aceite que tem o pneu de gordura e que tem que usar a cinta Spanx - disse ele. 

                                                                                                     Chimamanda Adichie

Mas, de qualquer modo, há alguma coisa em Chimamanda que me faz gostar menos dela e mais de Pauline Chiziane. Talvez tenha a ver com o lugar de onde ela fala, talvez eu prefire ouvir outras histórias e não apenas aquelas de mulheres que foram embora (ou tentaram ir) da Nigéria.

quinta-feira, abril 02, 2015

V Congresso Baiano de Pesquisadores Negros/ Encontro Estadual de Educação das Relações Étnicas & afins.



Prezad@s,

Informo que o site dos eventos: V CBPN - Congresso Baiano de Pesquisadores Negros - IV Encontro Estadual de Educação das Relações Étnica, XI Semana de Educação da Pertença Afro-Brasileira e II Seminário do Mestrado em Relações Étnicas e Contemporaneidade, já está devidamente atualizado e as inscrições já podem ser realizadas.

No menu inscrições do site há o link que direciona para o formulário de inscrições virtuais.

Os links do site e das inscrições seguem abaixo:

Site: http://www.uesb.br/eventos/cbpn/index.php

Inscrições: http://webeventus.uesb.br/inscricao/inscricoes.jsp?AKJG00C04F8D8EF9=DQWGZLfsjRZskdFHNaUSX334

Cássia Eller.


14 estações de Maria.


A cor do trabalho.


domingo, março 29, 2015

Voe por todo o mar.

Ele chegou aqui, vi o seu sorriso de novo, depois de muito tempo. Gosto de quando a gente conversa, mesmo quando a conversa não é a melhor do mundo. Gosto dele, pronto. Sem mais.
Quero que ele seja feliz, e queria poder ajudar nisso.
Mas não sei como.
Uma vez, eu tentei. Disse que a gente poderia ficar junto, tentar.
Mas eu acho que eu falhei. Eu fui embora, não suportei a vida real, com as pessoas do passado e as contas do mês.
Minhas impossibilidades.

Estamos ficando velhos, não oferecemos mais perigo um ao outro.
Mas eu queria ter uma chance. Mas eu também tenho medo de falhar de novo.
Talvez ele precise saber disso.

Criança, esse substantivo (e ser) sobrecomum.



Fotografia de Denisse Salazar.

Crystal Swain-Bates


Nascida em Atlanta, GA, Crystal Swain-Bates é autora e proprietária da Karat Publishing, editora boutique que visa preencher a lacuna da diversidade no mercado editorial tradicional, fornecendo os leitores com livros de alta qualidade, com personagens de ascendência africana. Alguns dos livros infantis de Cristal são Big Hair, Don't Care, Naturally Me!, Supermommy, e o livro de colorir inspirado em cabelos naturais chamado Color My Afro. Cristal possui um mestrado em Relações Internacionais na Universidade Estadual da Flórida e é uma viajante ávida por descobrir o mundo.





466 anos, Salvador (Senhora-piriguete).

Farol de Itapoan

Eu já sabia, mas tenho mais certeza. Uma das magias da vida é quando você está no lugar onde sempre quis estar. E eu estou vivendo justamente isso, agora. 

sábado, março 28, 2015

Para sempre Alice.


Oco.

Foi aí que eu descobri que ele não tinha mais nada dentro dele, era um oco só, era um vazio imenso, uma agonia dentro dele, ele não conseguia cavar mais, pra dentro e pra fora, era sempre a mesma toada, o mesmo silêncio. Ele vinha, chegava perto, superfície, voltava pra dentro de novo, com tudo e com mais força, eu não consegui alcançar. Liso, areia, liso, poeira.
Eu, que gosto de barulho e conversa e faço silêncio depois disso tudo e do amor, fiquei sem saber se eu errei ou ele quem nunca acertou. Fiquei ali, do outro lado, telefone tocando e ele me dizendo não.
Não, mais uma vez. Eu não pude reclamar, porque sempre foi assim, e eu sempre tinha visto. Eu me aventurei por esse mar de tristeza e agonia e silêncio bem porque eu quis, porque eu achava - eu achava mesmo! - que aquele sorriso dele às vezes e quando ele falava do país que ele nunca mais viu e o olho brilhava, eu achava que isso poderia me manter de pé, do lado dele.
Mas eu comecei a fraquejar, a querer colo e dengo no meio da noite, de longe. E descobri que ele nunca me deu - "não chora pelo que tu nunca teve, fia" - ele nunca nem prometeu.  
Ele sempre foi isso mesmo, seco e oco, pouco. Pra mim. Talvez não para as que vieram antes, para as que chegarão. 
Por isso, quem precisa ir embora sou eu. 
Sem erros, sem acertos. Foi uma tentativa.
Dói nele quando me ouve dizer duro, oco, seco e dói em mim dizer. Por isso, melhor não. Melhor longe, para o amor chegar de outro jeito, para que o que eu sinto por ele - amor - não seque também.

Viagem.


quarta-feira, março 25, 2015

A Sociedade das Crianças A’uwe – Xavante: por uma antropologia da criança.

                                                                        Foto: Angela Nunes

Terminei de ler o livro A Sociedade das Crianças A’uwe – Xavante, mas não vou escrever muito sobre. Importante para mim, deixo aqui o link de um artigo mais recente sobre o mesmo, escrito também pela autora da dissertação, defendida em 1997. Vale a pena para quem quer saber mais sobre temas relacionados à infância e antropologia. 

Cotas - Essa conversa não é sobre você.


Homens.

Das últimas histórias de amor e vontade, eu aprendi muito pouco sobre os homens, mas aprendi muito sobre mim. Não sei até que ponto isso me ajudará a me relacionar novamente. Na verdade, não vivo a minha vida pensando no que devo aprender direito para viver as outras experiências e me irrita um pouco as pessoas que ficam presas ao que lhe fizeram pessoas que chegaram antes de mim em suas vidas, não permitindo apenas o tempo passar, as coisas acontecerem.

segunda-feira, março 23, 2015

quinta-feira, março 19, 2015

IX Curso de Atualização nos Estudos da Diáspora Africana nas Américas - Inscrições Abertas.



A CRIOLA, através do Programa MultiVersidade Criola, um espaço de formação feminista e anti-racista para mulheres negras, e a UFF-Universidade Federal Fluminense através da Programa de Estudos Pós-Graduados em Política Social e Núcleo Transdisciplinar em Estudos de Gênero em parceria com a Universidade do Texas em Austin, através do Centro de Estudos Africanos e Afro-americanos (CAAAS), do Departamento de Estudos da África e da Diáspora Africana (AADS), e do Instituto de Estudos Latino Americanos Teresa Lozano Long (LILLAS), torna público a abertura de inscrições para selecionar alunas e alunos para o IX Curso de Atualização em Estudos da Diáspora Africana.


Objetivo do Curso 

Oferecer formação acadêmica e intelectual de alto nível a ativistas, estudantes e intelectuais de todo o país interessados na área de Estudos da Diáspora Africana, a partir das análises críticas produzidas pelo feminismo negro no Brasil e em outras comunidades da Diáspora Africana, em especial nos Estados Unidos. Este Curso de atualização tem como base o Programa de Pós-Graduação em Estudos da Diáspora Africana da Universidade do Texas em Austin, um dos mais respeitados nos Estados Unidos, e oferecido pelo Centro de Estudos Africanos e Afro-americanos (CAAAS) e pelo Departamento de Antropologia, ambos filiados à Universidade. 

Coordenação do Curso 


• Lucia Maria Xavier de Castro 
Assistente Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Coordenadora de Criola. 
• Luciane de Oliveira Rocha 
Ph.D. em Antropologia Social e Diáspora Africana pela The University of Texas at Austin. Coordenadora de projetos em Criola.
• João Bôsco Hora Góis. 
Doutor em Serviço Social pela PUC/SP. Professor Associado da Universidade Federal Fluminense e Pesquisador do CNPq, 
• João Costa Vargas (Ph.D., University of California in San Diego) 
Professor Associado, Depto. de Antropologia e Centro de Estudos Africanos e Afro-americanos da Universidade do Texas em Austin. 

Condição do curso 

O curso é gratuito e realizado na Universidade Federal Fluminense. As despesas de alimentação, transporte, hospedagem e do material didático-pedagógico são de responsabilidade exclusiva da candidata e candidato. 

Total de Vagas 
20 vagas 

Público-alvo 

O curso privilegiará a participação de ativistas dos movimentos sociais, negro e de mulheres negras, bem como de estudantes universitárias (os) em nível de graduação e pós-graduação com temas de estudo/pesquisas relevantes aos estudos da Diáspora Africana. 

Condições para a participação 

1. Ter no mínimo o domínio intermediário da língua inglesa para leitura e compreensão, pois grande parte da bibliografia do curso não está disponível em português. 

2. Disponibilidade de tempo de no mínimo 20 horas semanais para frequentar as aulas e para a leitura da bibliografia. 

Inscrição e seleção 

A ficha de inscrição está disponível on-line através do link (https://www.dropbox.com/s/nuknpwe5jrcabk2/Ficha%202015.doc?dl=0). As/os interessadas/os deverão preencher a ficha, e enviá-la por e-mail para diasporaafricana@criola.org.br anexando um curriculum vitae (três páginas no máximo) com informações sobre formação, a ação antirracista e feminista, participação em eventos acadêmicos e/ou ativistas. A ficha de inscrição e o curriculum vitae só serão aceitos por e-mail e deverão ser enviados no período de 16/03/15 à 06/04/2015. 

A seleção é realizada por uma comissão composta de representantes das organizações proponentes. Os critérios para seleção são: experiência de ativismo na luta antirracista e/ou feminista, interesse acadêmico sobre questão racial, capacidade de leitura e compreensão da língua inglesa. 

A lista com o nome d@s selecionad@s para o curso será publicada no site de CRIOLA (www. criola.org.br) e da UFF http://www.uff.br/politicasocial no dia 17/04/15. Os 20 alun@s selecionad@s devem confirmar sua participação em reunião com a coordenação do curso. A data da reunião será informada publicamente nos sites acima citados. A participação na mesma é obrigatória. 

A seleção das alunas e alunos e a decisão final e irrevogável cabem à coordenação do curso. 

Estrutura e local do curso 

O curso será realizado na Universidade Federal Fluminense (UFF), em local a ser informado na confirmação da matrícula, as segundas e quartas-feiras de 13h às 18h, no período de 08 de junho a 17 de julho de 2015, com carga horária total de 40h. 

Programa do Curso 

O curso procura dotar os participantes com uma visão geral sobre as teorias, histórias e questões políticas relativas à Diáspora Africana nas Américas e está inicialmente dividido em 4 módulos:

I- Rotas e Raízes: Teoria da Diáspora Africana – Neste módulo, analisa-se as perspectivas-chaves sobre a formação e dinâmica da Diáspora Africana. Os autores analisados têm diferentes posições — algumas vezes complementares algumas vezes contrastantes — com relação aos conteúdos e conseqüências da tradição radical negra. 

II- Pesquisa Ativista - Este módulo oferece uma introdução ao conceito de pesquisa ativista, tanto no que se refere à teoria quanto à prática. Com a perspectiva de que não existe neutralidade em pesquisa, o módulo articula o conceito de pesquisa ativista com tradições radicais mais amplas. 

III- Políticas Públicas – Este módulo oferece uma introdução ao conceito de Políticas Públicas enfatizando o processo de formulação e implementação como parte de lutas ideológicas e técnicas. Enfatiza a produção de políticas para “minorias sociais” sempre tendo como pano de fundo das discussões a questão racial. 

IV- Pensamento das Mulheres Negras na Diáspora – Este módulo oferece uma introdução aos estudos feministas negros das Américas, ao Movimento de Mulheres Negras e da Teoria Queer. A partir da bibliografia selecionada, discutiremos diversos temas, tais como: o sistema de opressão da mulher negra, sua prática política de resistência, metodologia e epistemologia feminista negra, assim como a critica a heteronormatividade, a papeis sociais definidos por gênero entre outros temas. 

V- Diáspora e Movimentos – Este módulo apresenta o legado histórico de resistência da população negra a partir do conceito de Tradição Radical Negra , evidencia suas formas de mobilização e organização desta população como protagonistas de suas próprias demandas. Estão incluídas aqui a luta pela terra, contra o genocídio, e outras produções acadêmicas e artísticas sobre movimentos negros na diáspora. 


Requisitos para Aprovação

Será considerada aprovada a aluna e o aluno que atender aos critérios de avaliação do curso: 1) freqüência de até 75% do total de horas do curso, 2) apresentar resumo e perguntas para debate em pelo menos 2 aulas, 3) entrega de um paper acadêmico ao final do curso, de 15 à 20 páginas, baseado em trabalho etnográfico, de arquivo ou de caráter sociológico, com foco no Brasil. 

A data para a entrega do trabalho final será acordada durante o curso e os certificados serão emitidos pela UFF-Universidade Federal Fluminense através da Programa de Estudos Pós-Graduados em Política Social e Núcleo Transdisciplinar em Estudos de Gênero 

Informações adicionais 


Para maiores informações escreva para o e-mail: diasporaafricana@criola.org.br

Original.

Você é toda linda porque é original, pele, olhos, caretas e cabelos. Eu que não vou dar mole de deixar uma mulher linda e inteligente como você por aí, vou fazer tudo direitinho e como você mandar até você aceitar namorar comigo


Ele bem que tentou, foi ótimo. Mas ainda não me convenceu.

quarta-feira, março 18, 2015

terça-feira, março 17, 2015

Dizer.

Eu queria dizer, dizer coisas.
Que eu não tranço mais o cabelo faz um tempo, e eu queria ter você aqui me fazendo cafuné, aquele cafuné que você reclamava não fazer direito quando o cabelo tinha tranças (muito embora minhas melhores fotos de cabelo trançado foi você quem tirou...).
Eu queria fazer coisas, fazer coisas.
Coisa de amor, coisa de ficar junto conversando e rindo, falando do presente e lembrando do que a gente falava do futuro.

Eu queria sentir coisas.
Sua respiração pesada, seu sono que não vinha mesmo quando estavas cansado, seu olhar baixo que me olhava, suas lágrimas, suas mãos, suas lentes e suas fotografias (que eu tinha ciúme como se fossem minhas).
Eu queria ver coisas, ver coisas.
Ver seu rosto, seu corpo, ver você e eu juntos de novo.

sábado, março 14, 2015

quarta-feira, março 11, 2015

Hibisco Roxo.

A partir de hoje, começarei a escrever pequenas resenhas de livros que terminei de ler. Há muitos outros que eu deveria ter feito isso, se conseguir tempo, postarei os livros dos últimos anos.

Terminei de ler Hibisco Roxo, de Chimamanda Adichie. Tenho buscado ler livros de escritoras africanas ultimamente, porque entendo que a linguagem utilizada nestes livros difere substancialmente de outros que passei toda a minha vida lendo. Eu, que quando adolescente li O Diário de Anne Frank e Christiane F, quero agora ver a vida por outros olhos, outras palavras, paisagens e sensações. Assim, vamos às escritoras africanas por enquanto. Quero também não apenas ler Chimamanda, mas outras tantas, como Pauline Chiziane, Noêmia Souza e Noviolet Bulamayo. 

Hisbisco Roxo (Purple Hibisco) é o primeiro livro de Chimamanda, publicado em 2003. Apesar de ter tido tradução literal em português brasileiro, gostei mais da capa e da tradução do título em português. 

Capa do livro de Chimamanda pela Asa, editora portuguesa

O livro conta a história de uma família de classe alta na Nigéria, pelos olhos da menina Kambili. A devoção de seu pai Eugene a uma religiosidade branca católica é o que faz com que Kambili cresça com medo de errar todo o tempo, o que também a afasta de parte de sua família, que segundo o pai, não aceitou a religião certa e cultua deuses pagãos. O relacionamento de Kambili com a tia e os primos e também o avô, que é visto de maneira reprovadora pelo pai, é o que a leva a questionar se seus medos e timidez condizem com o que ela realmente pensa.
A partir da estadia na casa de tia Ifeoma, conhece padre Amadi, por quem começa a ter sentimentos que remetem a um primeiro amor. Kambili tem um irmão, Jaja, que é uma das personagens que mais gostei, apesar de não ser principal e nem tão falado. Não sei bem porque, mas penso em Jaja como alguém realmente especial e importante para Kambili ser quem é e se tornar o que é. Ele... bem, não vou contar o final do livro, não é mesmo?

Eu gostei do livro, recomendo. 

Apesar de ler Chimamanda, estou absolutamente segura que seu texto está carregado da Nigéria que conheceu, ela mesma de classe média e com acesso à Universidade dentro e fora do país. Não é apenas esse o relato que existe, mas é o que me chega e por isso, vou ler!

Nota: Tenho notado certa padronização nas traduções da Companhia das Letras para a maioria dos livros que leio. Não sei se é só uma sensação ou isso pode ser confirmado por alguém que entende de tradução e revisão. Estou lendo um livro da mesma autora por outra editora e gostei mais da narrativa. Resta-me ler o mesmo livro por editoras diferentes.

                                                                                            Chimamanda Adichie

Resistência Poética.

Indo para faculdade, aquela maresia dentro do buzu (na verdade, isso não acontece sempre. Viajar de buzu em Salvador é uma das experiências mais legais que eu passo na vida, um dia ainda vou escrever sobre isso). Mas ali entre a Pituba e Amaralina, entraram dois jovens, moça e moço, subiram as escadas começando a disparar palavras em forma de versos. Eu que tava ouvindo música e meio sonolenta parei tudo e comecei a ouvir, não apenas porque eram pessoas negras, mas porque estavam fazendo poesia falando de racismo, juventude, cabelo, essas coisas. 
Comecei a me arrepiar inteira.

racismo existe sim/ e ele não tá de brincadeira, não/ ele está nas ruas, nas escolas/ aqui no ônibus e televisão/ 

Coisas assim. Lembrei de Rosa Parks, lembrei dos jovens do Cabula, me segurei para as lágrimas que se escoravam no canto do olho não saírem para fora e transbordarem aquele lugar, virar mar. Pediram palmas, contribuição. 
Pediram, mas me deram muito mais do que eu estava preparada para receber numa viagem de buzu. Ainda me arrepio quando lembro de suas caras. 
É por essas coisas todas que é tão bom estar aqui, que eu escolhi estar aqui. 



Xororô


/Hoje o guarda-chuva chora mas não é de felicidade/

segunda-feira, março 09, 2015

sexta-feira, março 06, 2015

quarta-feira, março 04, 2015

terça-feira, março 03, 2015

Facebook.

Não ia escrever sobre isso, mas fiquei tão intrigada com as sensações que tive que vou fazer uns comentários. Eu tive MSN por muito tempo, mas depois que o hotmail cancelou minha conta antiga (eu era do tempo do mighiandanae@msn.com), fiquei chateada e decidi não fazer outro, deixei para lá. 
Conversava pelo Orkut com as pessoas. Mas aí, desativei o Orkut quando comecei a escrever a dissertação. Em janeiro desse ano, me pediram tanto que eu fiz o tal do Feicibuque. Gostei bastante no começo, mas cansei, cansei. 
Incomoda-me a ideia de que a gente converse com as pessoas a partir de um dado virtual, que as conversas nos bares girem em torno de postagens e imagens retiradas dali, que as gírias reinventadas venham de um canal exclusivamente virtual, que as "modas" surjam a partir desse lugar. Eu acredito que todas essas redes são para ampliar os horizontes mas, por conta da vida que temos, a gente para ali, não vai além, vai acomodando na vida que essas redes te dão, vai empobrecendo o vocabulário e diminuindo o tempo de vida. 
Vida real, vida virtual. Não acho que são coisas separadas, enquanto eu teclo eu estou vivendo a minha vida real, não gosto muito dessas dualidades. A questão é quando você para ali e fica. Fica. Fica. 

10 anos de blog Migh Danae.

29 de março de 2005, foi quando tudo começou.
Há anos em que nem me lembro disso, mas esse ano faz 10 anos e eu percebi que esse mês também é aniversário de Salvador.
Talvez tenha sentido pensar nessa relação se eu lembrar que em 2005 eu tinha quase dois anos em São Paulo e sentia tanta falta de Salvador. Esse blog nasceu e com ele, eu diminuí as cartas.

Curioso é pensar que, depois de um tempo, escrevi menos nele e voltei às cartas.
Agora elas voltaram de novo.
Se tem uma coisa que eu queria, depois de morta, é que as cartas que eu escrevo fossem publicadas.
Mas, para isso, eu preciso ser alguém importante para o mundo, não só para os meus amigos. Mas tudo bem, vou orquestrar com eles a manutenção de um blog e a publicação das cartas por aqui mesmo. Uma boa ideia para o fim.

Mas, vamos brindar à vida. De Salvador e de blog Migh Danae!

Scandal.




Selma.


Boyhood.


domingo, março 01, 2015

Quatro anos.


Eu queria ter quatro anos hoje. Talvez menos, nunca mais que isso.

Ter quatro anos e morrer devagarinho, só se vive quando se é criança. O resto é mentira, lágrimas duras e contas a pagar. Morrendo devagarinho até chegar aos dezoito, época que eu ainda brincava de boneca e tinha um urso no lugar de um namorado.

Eu queria ter quatro anos e não saber que existiam verdades e mentiras. Verdades que você iria preferir não ouvir como “sua mãe já não tem a mesma coragem de antes, filha” ou “eu amo você, mas estamos longe”.
Morrendo devagarinho nas mãos daquela professora que dizia “senta direito”, “come tudo, de garfo e faca agora, “não briga com o coleguinha”, “obedece sua mãe”. Queria saber se ela ia mandar obedecer a mãe mesmo quando ela acorda num humor péssimo, como hoje.

Eu queria ter quatro anos hoje e não mais que isso daqui a um ano, quando eu escreveria essa poesia de novo e faria o tempo voltar outra vez.

Eu queria ter quatro anos, só isso. Não queria saber que iam me matar, matar a criança que eu era, queria ser de novo boba e imbecil, perdoando pessoas e emprestando lápis de cor, brigando por amigas que nem valem a pena, indo pra casa sem minhas presilhas douradas porque dei de presente para alguém.

Eu queria ter quatro anos, nem precisava ser criança prodígio ou coisa do tipo, não queria saber ler nem escrever, nomes enormes de dinossauros na ponta da língua, matemática, nada. Queria massinha de modelar e encher a boca de bala que vira chiclete, brincar de corda e bambolê na rua.


Quatro anos. 

sexta-feira, fevereiro 27, 2015

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Eu voltei.

Há quase doze anos, eu fui morar em São Paulo. Estava apaixonada e topei tentar a vida lá, já que o moço tinha se aventurado por aqui e não tinha dado muito certo. O namoro acabou, fui ficando porque queria tentar estudar lá, de preferência na Universidade de São Paulo. Tudo isso porque, aqui no interior da Bahia, onde eu fiz minha graduação, algumas professoras tinham feito suas pós-graduações na USP e sempre falavam da universidade como referência. Assim, sonhava.

O tempo passou, e exatos seis anos depois de ter chegado à São Paulo, entrei na USP para começar um mestrado. Já trabalhava como professora há alguns anos e aproveitava qualquer tempo para vir a Salvador. Me lembro que no primeiro ano em São Paulo eu tinha pouco dinheiro e aventurei vir para Salvador de ônibus, porque soube de uma oportunidade de bolsa de estudos que me pedia para entrar em contato com antigas professoras de graduação. Voltei, fiz toda a papelada, mas não consegui a bolsa de mestrado. Lembro-me até hoje, queria estudar tráfico de mulheres na Itália, algo assim. Memórias de Batom era o nome do projeto.

Não passou, não consegui a bolsa Ford. Me disseram que o projeto estava bem escrito, mas talvez ambicioso demais, sem relação com o que queriam no momento. Tudo bem, mas pelo menos percebi que conseguia escrever algo. Estava cada vez mais aficcionada por história e ciências sociais. Mas acabei continuando minha carreira acadêmica na educação mesmo. Não é que não goste de educação, eu gosto de muitas coisas. Eu queria mesmo é ser dançarina, mas deixa isso tudo pra lá. Professora de dança de crianças talvez fosse um trabalho perfeito para um sonho perfeito.

Acabei entrando na linha de história da educação na faculdade de educação. Passou o mestrado, começou o doutorado. Mas eu nunca tirei da cabeça a ideia fixa de voltar pra Salvador. Queria que aqui fosse de novo o lugar de onde eu iria começar de novo, ficar ou ir embora. Quase doze anos, mas na programação inicial eram 10 anos. Eu voltei com 11 anos pra cá, porque já faz algum tempo que estou aqui. 

Eu nunca deixei de vir pra Salvador. Nunca. Era uma coisa meio obsessiva. Doença, loucura. Vivia em avião voando pra casa. Passava dois dias, uma semana, o que desse. Acho que já vim num sábado e voltei num domingo, no meio desses dez anos. E acho que o máximo que passei sem vir foi em 2009, cinco meses. 

Eu não sei. Mas eu gosto daqui. Gosto mesmo. Claro que não é só isso, mas é isso também. Tem um monte de problemas quando você volta pra casa depois de onze anos, diferentes daqueles que você tinha quando estava longe. Perguntei a uma amiga qual seria uma das minhas qualidades e um dos meus defeitos. Ela disse que uma das minhas qualidades era o fato de conseguir se adaptar rápido às situações. Ah, defeito? Remoer demais as coisas. 

Eu voltei, não sei se pra ficar. Mas é bom estar aqui de novo.  

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

terça-feira, fevereiro 17, 2015

Tudo dele.



Meu pensamento? Todo dele, nada meu.

Junho.


Maré Mansa - As ganhadeiras de Itapuã.




Maré Mansa
(Jenner Salgado)

Ela sai no Malê
Dança balé
É debalê
Ela é candomblé

É maré mansa
A negra dança
É maré mansa
É negra a dança iaiá

É maré mansa
A negra dança
É maré mansa
É negra a dança iaiá

Lá o negro Malê
Canta encanta sua revolta
Em volta de si em volta de si

Areias brancas
Areias brancas
Areias brancas
Areia branca
É maré mansa a negra dança iaiá

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

É lindo de se ver.

Ontem, na saída do bloco Afro Malê Debalê, a vida que exalava nas ruas de Itapoan. Era impossível passar direto, não se você ama quem você é e o que você faz. Crianças, borbulhando em todos os lugares, de todas as idades, eu falei de todas as idades. 
A chuva que caía era parte das lágrinas de emoção que eu derramava. 
Kirimurê!

domingo, fevereiro 15, 2015

20 Centavos.


Noite funda.

Eu descobri que ele não vai mudar. Aí mudei eu. De lugar, de cabelo, do que eu queria. Mudei.
Mas não por ele e nem por mim.
Mudei porque escolhi.

E ele nunca vai saber o que eu sinto. Nunca mais. Vai esperar o futuro chegar e até lá estarei morta.
Ou mãe de quatro filhos, vai saber.


sexta-feira, fevereiro 13, 2015

Só hoje.

Depois de te ver chorar, eu só queria tirar toda a dor que você sente com um abraço, mas isso parece impossível e eu mesma me vi incompetente ao tentar fazer isso, já que faz muito tempo que a gente não consegue mais assim, um abraço.
Queria também que você ficasse feliz e orgulhosa ao ver a pessoa que me tornei hoje, em parte por causa de você, mesmo que hoje você mesma não veja já tanta graça nas coisas que eu digo, parecidas com aquelas que você dizia há vinte anos atrás.
Enquanto me banhava, as lágrimas caíam e eu segurei o soluço que vinha alto para não parecer que eu não iria suportar, para que você não perguntasse "o que é?" e eu parecesse fraca, coisa que você nunca gostaria de parecer. Também não queria te desconcertar porque sabia que isso aconteceria se você ouvisse o meu choro, talvez você chorasse também, talvez a gente não soubesse o que fazer.
Mas talvez fosse bom.
Diferente disso, eu só tomei meu banho, a gente almoçou, viu um filme e chorou com o final que não foi feliz.


Mas talvez, vá saber, isso também é um pouco de amor.

quinta-feira, fevereiro 12, 2015

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Faith Ringgold.



Faith Ringgold: pintora, escritora, palestrante, escultora de meios mistos e artista performática, vive e trabalha em Englewood, Nova Jersey. Ms. Ringgold é professora emérita da Universidade da Califórnia, San Diego, onde ela ensinou a arte de 1987 a 2002. Professora Ringgold recebeu mais de 75 prêmios, incluindo 22 de Doutor Honoris Causa de Belas Artes Degrees. Recebeu bolsas e subsídios, que incluem o National Endowment for the Arts Award para a escultura (1978) e para a pintura (1989); O Prêmio La Napoule Fundação para a pintura na França (1990); O John Simon Guggenheim Memorial Foundation Fellowship para a pintura (1987); A Fundação New York para o Prêmio Artes para a pintura (1988); A Associação Americana de Mulheres Universitárias para viajar para a África (1976); The Creative Artists Public Service Award para a pintura (1971). A arte de Ringgold tem sido exibida em museus e galerias nos EUA, Canadá, Europa, Ásia, América do Sul, Oriente Médio e África. Sua arte está incluída em muitas coleções de arte pública e privada, incluindo The Metropolitan Museum of Art, The National Museum of American Art, o Museu de Arte Moderna, o Museu Solomon R. Guggenheim, o Museu de Belas Artes de Boston, The Chase Manhattan, The Museum Baltimore, Williams College Museum of Art, The High Museum of Fine Art, The Museum Newark, The Morris Coleção Phillip, o Museu de Arte de St. Louis e The Museum Spencer. 
[...]
O livro de Ringgold publicado pela primeira vez, o premiado, Tar Beach, "um livro para crianças de todas as idades", foi publicado pela Random House em 1991 e ganhou mais de 30 prêmios, incluindo, um Honor Caldecott e o prêmio Coretta Scott King para o melhor livro de 1991 infantil ilustrado. [...] If a Bus Could Talk; The Story of Ms. Rosa Parks ganhou o Prêmio Imagem da NAACP de 2000.

De Faith, (mais uma homenagem pra gente), um quadro que me fez chorar:


Veja tudo isso e muito mais aqui.

Anotações de viagens.

Eu prometo escrever pouco.

Há pessoas que viajam e adoram contar em detalhes todas as curiosidades. Eu mesma acho ótimo, quando vou viajar sempre checo esses blogs, leio e vejo o que me interessa, mas eu mesma não tenho paciência para explicar como funciona o bilhete de ônibus em Londres e qual a diferença entre comprar um diário e um para a semana inteira. 
Sendo assim, pensei em anotações de viagens que pudessem trazer novidades sobre os assuntos que me tocam.

Quando cheguei em Lisboa, impressionei-me como os colonizadores portugueses fizeram Salvador muito parecida com o que eles tinham lá. Depois fiquei pensando como nosso povo aqui se apropriou tão bem de tudo que ficou com uma cara mais bonita e animada. As pessoas na rua, o sol, o clima, a vida, há vida.

Aí eu senti frio e tudo me desanimava, fiquei sem ver meu pé por muitos dias ou o via por alguns minutos, o tempo de tomar banho e enfiá-lo de novo dentro das meias... isso não é vida, eu preciso de sol para viver e sorrir todos os dias. 

E como disse Petronilha Silva no parecer sobre a lei 10.639/03, a escravização não fez bem pra ninguém. A ideia de ser superior transforma alguns povos nas pessoas mais insuportáveis do planeta, o que fez com que alguns achassem que precisávamos de aulas de português para falar corretamente até quem oferecesse emprego na rua (em menos de cinco dias em Londres, me ofereceram um emprego de babá!), pelo simples fato de sermos brasileiras (negras, diga-se de passagem). 

Madri, tudo cinza. Pelo menos para mim. Me disseram que gostaram de lá pelo clima no verão e porque dava pra ficar na rua. Mas isso tudo eu tenho bem aqui em Salvador. E de lambuja (o que muda tudo!) tenho acarajé.

Em Londres não vi criança na rua por umas oito horas. Só fui ver uma quando eu cheguei no bairro onde eu ia me hospedar, um bairro com uma população negra imensa. Do lado deste bairro, havia um outro com uma população negra vinda de países do PALOP, mas ali se concentravam basicamente negros e negras jamaicanos, nigerianos, enfim, muitos vindos de países colonizados pela Inglaterra. Criança branca eu só vi uma, com a mãe, num dos ônibus que peguei no centro da cidade. Quando falei isso com um rapaz negro que estava no segundo andar do ônibus comigo ele me respondeu:

School time

Como se isso explicasse o fato das crianças não se apropriarem da cidade. 

Crianças negras eu vi muitas, durante os dias que passei lá. No bairro e também nas ruas, com pessoas mais velhas. Criança na rua com outras crianças? Nunca. 

Londres é cinza também. Perguntei se no verão eu conseguiria usar uma tomara-que-caia ou um shortinho, gargalharam na minha cara. Verão sim, mas o sol não aparece nunca. 

Em Paris, o número de pessoas negras é enorme. Tão grande que em Montmartre eu comecei a contar nos dedos os brancos que haviam por ali. Mas em Paris falar de raça é um tabu: não perguntam a cor das pessoas no censo do país, me disse uma amiga que tem um amigo francês. Seria ótimo saber qual a porcentagem da população negra da cidade, eu chuto uns 40 por cento, por baixo. Paquerei horrores. O mais legal era poder falar em português com minhas colegas e olhar para eles com a certeza que não entendiam nada. 

Em Lisboa, também há muitos negros. Mas não entendi porque em Paris eles chamaram mais minha atenção. Em Londres também há. Falando isso, eu lembro que as pessoas que vem ao Brasil sempre dizem que há muitos negros aqui, mas não se vê na novela. Eu fiquei me perguntando porque falam isso do Brasil se em todas essas cidades que eu fui o número de negros e negras é enorme e a gente também nem sabe. Pimenta no dos outros é refresco.

Comida, comida. Eu comi mal em todos os lugares. Não sei o que as pessoas suspiram tanto quando viajam para o que chamam de Europa: come-se mal se você tem pouca grana, o que acontece com pessoas como eu com pouca grana e que troca uma moeda que vale três ou quatro vezes mais que a nossa. Assim, um prato de comida (quando se achava um lugar que vendia comida assim, como a gente come aqui - sem feijão) saía por 6 euro, o que dá quase vinte reais, valor que aqui no Brasil eu como MUITO bem. E nem vem me dizer que entrar em supermercado e comprar aqueles lanches empacotados individualmente na hora do almoço serve porque eu gosto de almoço. E almoço, comida típica dos países em que visitei, era coisa cara, pra lá de 20, 30 euro. Sai pra lá, não tenho árvore de dinheiro.

Mas o lugar pior de comer pra mim foi Londres. Eu realmente estou procurando coisas boas da cidade, além dos museus, que tem coisas saqueadas de todos os lugares do mundo que você possa imaginar. Eles tem a pachorra de colocar no Museu da Livraria Britânica documentos do Budismo! Pasme! Sem nenhum pudor. Poderiam fazer um Museu pro Shakeaspeare, mas não se contentam e enfiam no meio tudo que eles roubaram dos países que eles invadiram. Eu fui aos museus, mas não dou um real (que lá vale um quarto de libra...) para aquelas lembrancinhas com múmias desenhadas ou sarcófagos. Infelizmente, para ver essas coisas, é preciso ir a Londres ou Roma. Mas eu já decidi, uma das próximas viagens será o Egito.

Em Paris, tudo OK, metrô pra tudo que é lugar. Mas estações horríveis, que se fosse aqui no Brasil estaria todo mundo falando mal. E não foi só uma, foram várias estações completamente detonadas, remendadas, precisando de reparos sérios. Bom, mas who cares, o povo daqui vai pra lá e suspira na Tour Effel (eu olho para ela e me pergunto: quem construiu, quem botou aquelas vigas lá?). Puxei conversa com os ambulantes da cidade, conversei, falei com as pessoas, entendi mais coisas, aprendi demais com elas. Em Londres o metrô também é massa, mas se você não tem quase 50 reais por dia para usá-lo ilimitadamente, esqueça. Esse é o valor que você paga por um tíquete diário que combina trem e metrô. Tá bom pra você? O que deveria ser um transporte público acaba sendo um privilégio para poucas pessoas. E nem vem me dizer que 11 libras para eles é pouco. Esse valor é caro também para quem ganha um salário mínimo. Em Lisboa, também não chega a ser barato o valor do tíquete diário pra todos os transportes: 6 euro.

Em Lisboa e Paris, onde usei mais metrô, acessibilidade zero. Escadas que não tinham fim não ajudavam a imensa maioria de idosos que por lá vivem, o que me fez quase não ver cadeiras de rodas pela cidade.

Há uma migração intensa entre estes países, todo mundo querendo uma vida melhor. Muito parecido com o que a gente faz aqui no Brasil entre os estados, o que dá no mesmo, considerando que estes países são menores que muitos estados nossos... entre Lisboa e Londres é o mesmo tempo que eu levo de São Paulo para Salvador. Nessa lógica, muito português desempregado vai pra Londres! Nada mais óbvio, se você vai ganhar em libra, que custa mais que o euro. Aí o pessoal diz que "quando você vai  pra Europa, é massa porque você conhece vários países". Mas é óbvio, os países são próximos! Não tem nada a ver com "lá eles são multiculturais". Balela. Muito deslumbre pra pouca coisa.

Dessa galera, quem mais teve um discurso xenofóbico foi a senhora dona da casa que a gente ficou hospedada em Paris. Ela não conseguia falar uma frase inteira sem falar "cuidado com os árabes", "os gitanos são um problema" e coisas do tipo.

A verdade é que eu vou aos lugares querendo ver outras coisas, não as igrejas e os monumentos históricos das guerras ou das invasões. Eu quero só estar ali e ver as coisas acontecerem, só que para isso eu preciso de mais tempo. Por isso, não me desespero em fazer roteiro de turista, me agrada muito mais conhecer um migrante dono de um restaurante de comida turca do que fazer selfie no Arco do Triunfo. Mas todo mundo tem um sonho, vamos respeitar.

Não tenho mais nada para comentar. Viagens são viagens, aprendemos coisas. Mas ainda estou procurando o encantamento que as pessoas tem por essas cidades. Eu vi pessoas, pessoas como eu, em transito pelo mundo procurando coisas, e é com elas que eu sempre acabo voltando pra casa. 

quarta-feira, fevereiro 04, 2015

Eu amo você.

Porque eu mudaria minha vida inteira e começaria tudo de novo por causa dele. Para continuar a sentir o que eu estou sentindo agora por muito, muito tempo.
Para dormir em seu peito algumas noites ou todas as de uma semana. Para sentir seu cheiro, ouvir sua voz de manhã cedo, para responder "dormi bem", para tomar banho com uma havaianas tamanho 42, para pegar um avião, outro, trem, ônibus, metrô.
Eu começaria tudo de novo, só para saber que ele me ama também.
Só porque eu sei que ele me ama também.